Mentem porque não temem (por Leonardo Melgarejo)

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No dia 11 de agosto, com milhares de pessoas se reunindo em todos os estados do país para reafirmar compromissos com a democracia, tivemos um marco histórico.

As falas, a junção de todos os tipos, perfis, formações, idades e pautas, as caminhadas e as discussões que se seguiram, em lares, bares e botecos devem ser vistas como o início do fim deste período em que nos submetemos  ao  “obscurantismo retrógrado de um ditador travestido de político”.

Um início, um compromisso de ação solidária consciente, para enfrentamento das dificuldades que se colocam, e que agora exigem mobilização ativa. 

De fato, estamos imersos em destruição de todas as instituições. Vemos a miséria avançando em escala multidimensional, enquanto a mentira e a hipocrisia se consolidam como códigos de conduta moral, modelos de sucesso e estratégia de governo.

No conjunto, a enganação planejada, a adulação astuciosa e as ameaças concretas invadiram e rapidamente dominaram a consciência da nação. Fraqueza nossa, é verdade. Mas em poucos anos acabamos nos acostumando à difusão, à banalização e à internalização de comportamentos imorais, que impedem contatos verdadeiros e que açodam as competições e as negociatas, anulando a solidariedade e a empatia.

Resultamos imersos em quadro de violência social que se agrava pela distribuição de armas e pelo crescente poder das milícias, com evidente apoio e no interesse dos ocupantes do Planalto.

E é contra isso que este 11 de agosto de 2022 marca ponto de mutação. Ali estão sinais de emancipação que apontam para convergências rumo à superação do drama coletivo.

Não é algo simples, ainda que se trate basicamente de perceber e desmascarar como ridículos e inaceitáveis os comportamentos mentirosos que dão base à tragédia nacional.

Vejam a reação da Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns à afirmativa de que o Palácio do Planalto, local de trabalho da Presidência da República, teria sido “consagrado a demônios”. Para aquela Frente, Michelle usou “a divindade para tornar o semelhante um inimigo desumanizado, ligado a forças nefastas e que podem inclusive ser alvo de violência de forma legitimada” … “O resultado dessas declarações não pode ser outro senão fomentar a desagregação da sociedade através do medo e colocar em risco a luta internacional de mais de um século por diálogo e cooperação inter-religiosa e ecumênica”.

A quem serve isso?

Bom, pode ser indicativo de solidariedade ao presidente que mente, por parte de sua jovem esposa. Afinal, segundo o Site Aos Fatos, até fins de março o inominável já contabilizava, no exercício de governo, pelo menos 5.140 declarações falsas ou distorcidas.

Atualmente, e exatamente por isso, não apenas o New York Times como até o editorial dos golpistas do Globo reconhecem que as mentiras deste presidente têm propósito definido, e não cessam de se repetir.

Eu não assisti, mas li que em monólogo de cinco horas ao Flow Podcast, que foi acompanhado por 8 milhões de acessos, ele teria exposto de pleno suas ideias desencontradas, recheadas de “mentiras, negacionismo, teorias da conspiração, homofobia, golpismo, acusações sem provas, falseamento da história”. Uma verdadeira colagem de falsidades já desmentidas, sobre cloroquina, corrupção em seu governo, saúde, educação, vacinas, segurança pública, urnas, comunismo, eleições e realizações imaginárias.

Percebam a relevância disso: o chefe de uma nação levando desinformação, impunemente e com objetivo de estimular a belicosidade entre milhões de desesperados.

E seus apoiadores? Em maioria, não sabem o que está acontecendo, ainda que alguns, raros, melhorem de vida. Como exemplo considere-se que entre 2018 e 2022, quando todos empobrecemos, o patrimônio do General Mourão, aquele comedido vice-presidente que hoje é candidato ao Senado pelo RS, quase triplicou.

Estas assimetrias podem mesmo estar se sustentando na valorização de mentiras? Afinal que poder se esconde na enganação? Do que estamos tratando? Porque as pessoas mentem e o que é uma mentira?

Mente quem afirma algo que se sabe falso.

Assim, mentir corresponde ao desejo de enganar, iludir. Quem mente sabe o que faz e o faz para obter algum tipo de benefício.

Como isto tem graus, os psicólogos afirmam existirem casos de mentirosos compulsivos, dominados por transtorno intitulado Mitomania. Estas pessoas mentem como forma para obter consolo psíquico que ajude a mascarar suas frustrações e angústias. Se trata de processo evolutivo onde, no limite, os doentes passam a acreditar nas fantasias que concebem. Estes, em sua autoilusão podem se tornar tão convincentes que venham a contaminar e iludir a percepção de outras pessoas.

Admite-se que isto pode levar a verdadeira cultura de corrupção, que pode agregar adeptos na medida da impunidade a que se associe, posto que ali o sucesso decorrerá da capacidade de enganar.

Este é uma situação em que as crianças são estimuladas a mentir, pelo exemplo e pela valorização do comportamento de adultos que mentem, em círculos de degradação similares ao que estamos observando no Brasil dos pós-golpistas.

Já no âmbito religioso a mentira é considerada, literalmente, um pecado que ofende a Deus. Isso porque a mentira seria orientada pela figura do diabo, o “pai das mentiras”.

Aliás, pra ir um pouco mais longe, e considerando que a Michelle deve saber disso, para a Bíblia, “aqueles que mentem deliberadamente são filhos do diabo e não terão parte na bem-aventurança do Senhor”.

Enfim, se na terra os mentirosos fazem sucesso é porque desrespeitam os céus e se aliam a outros pecadores, doentes que também precisam disso para reconstruir a própria autoestima. Neste tipo de agrupamento a mentira passaria a ser validada como qualidade operativa e daria base a uma espécie de lei da hipocrisia. Verdadeira norma de comportamento coletivo com alto potencial de destrutividade.

A banalização da mentira se faria potencializada pela cumplicidade. Assim os mentirosos elaborariam farsas e criariam inimigos imaginários, atribuindo malignidade ou periculosidade a grupos com que não se identificam. Os umbandistas, os terroristas, os comunistas, enfim, os outros seriam desta fora justificadamente agredidos, perseguidos e brutalizados.

Sendo pessoas impulsivas, sem noção de culpa e tendentes a se imaginar na posição de vítima, ou herói, os mentirosos patológicos, literalmente não se enxergam. Por este motivo, são incapazes de cumprir responsabilidades para com os demais, não admitem estar errados e carecem da ajuda de outras pessoas, para buscar o tratamento de que necessitam.

Entendendo ser este o caminho para onde nos levará o espírito deste 11 de agosto, em relação ao presidente que mente e sua turma, reitero aqui pedido de que façamos nossa parte, iniciando por endossar a ‘Carta às Brasileiras e Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito’, em https://estadodedireitosempre.com

Como música sugiro Vê (Pedro Munhoz) – Pedro Munhoz-Oficial

Saiba mais em  https://www.brasildefators.com.br/2022/07/28/artigo-pedro-munhoz-abre-o-peito-e-deixa-o-coracao-a-mostra-em-novo-cd

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

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