Quem não morrer jovem, de velho não passará (por Leonardo Melgarejo)

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Não se preocupe, e enfrente. Quem não morrer jovem, de velho não passará.

(Frase de Anastácio Peralta, liderança Guarani Kaiowá, para jovem acometido de covid em sua aldeia).

Temos alcance para acessar o estímulo positivo desta mensagem? Para entender sua densidade e profundidade espiritual? Fiquei matutando sobre ela. Pode parecer uma piada, ou algo menor como o reconhecimento de impotência diante de fatos esmagadores. Ou pode ser vista como uma espécie de consolo, reduzida a suspiro de alienação escapista. Mas ela é de fato um impulso positivo. Um alento à coragem, um estímulo ao enfrentamento de desafios gigantescos.

Entendi, com ajuda, que esta mensagem vai além do que pareceria sugerir na rápida e apressada leitura que é típica “dos brancos”.

E daí veio o tema desta coluna.

Durante a semana tive oportunidade de almoçar vários dias com Anastácio Peralta e fui pouco a pouco me esclarecendo sobre o que passo agora a comentar.

Ele explicou, como se fosse algo simples, que em sua visão de mundo todos fazemos parte de um movimento eterno, onde tudo tem sentido, onde tudo tem alma, onde tudo fala. E disse ser motivo de tristeza e medo o fato de estarmos deixando de escutar a voz daquelas inteligências que nos envolvem. E que por isso já passamos de todos os limites, alimentando uma guerra contra as bases da vida, como que fosse possível alcançar impunemente sua anulação.

Ele disse que a ganância e o avanço da deseducação são as causas. Assim, estaríamos perdendo o respeito por valores reais, o que provocaria rompimento de ligações essenciais ao desfrute da vida.

Ilustrou, como que desenhando exemplos, relatos de casos em que a ignorância “dos brancos”, depois de matar povos, rios e lagos, agora avançaria na destruição das montanhas, “roendo os ossos da terra” e alargando feridas que se espalham para o fundo e em todas as direções.

Ele disse que os espíritos que habitam o todo sabem, assim como os povos seculares o sabem, que cabe ao ser humano cuidar da vida, de todos os seres, e inclusive dos que, adoecidos, se afastam do fundamental e tentam, em loucura, arrastar a todos, para o fim de tudo.

Entendi aos poucos, ao menos em parte, e por isso repito. Nisso tudo haveria uma espécie de queda, uma vertigem, um afastamento bloqueador de compreensões. Nas palavras dele, porque “desaprendendo a cultura, perdemos o respeito”.

De fato, isso entendemos. Basta perder o respeito para perder o rumo. Sem respeito se extraviam os interesses, os acordos e os próprios sentidos.

E assim como não é fácil, para nós, entender que uma pessoa de grande sabedoria enxergue o milho como uma pessoa, “com seu sorriso, seus dentes, seus cabelos”, também há de ser difícil, para ela, o fato de negarmos o que lhe seria óbvio. “A água, a floresta, todos os animais e o ar têm alma e precisam de homens e mulheres com cultura e sensibilidade para traduzirem, a todos, e em todas as línguas, a mesma história de desespero e morte, que ressoa a partir deles, em milhões de vozes.”

Aprendi ali que precisamos de escolas e universidades diferentes das que aí estão. Precisamos espaços de educação que não desorganizem compromissos milenares da vida humana para com o ambiente, com as crianças e os idosos, com as famílias, ninhos e ninhadas de todas as espécies.

Entendi também uma parcela das falas de outras lideranças indígenas, que explicaram os riscos e as dificuldades que suas famílias assumem, quando enviam seus jovens para o sofrimento do convívio com preconceitos e bullyings, nas escolas “dos brancos”. Trata-se de esforço para aprender nossa língua, nossos papéis, nossas normas e leis.

Há nisso um colossal sacrifício. Consciente, de ordem individual, familiar e coletiva. Ele revela esforço quase desesperado, que se orienta pela busca de entendimento capaz de contribuir, no fundo, para a educação dos “brancos”.

Aqueles povos sabem que precisam disso para se fazer ouvir e respeitar. Para, quem sabe assim, nos levar a compreender valores que em nossas ações evidenciamos ignorar.

Compreendi, enfim, com apoio de Anastácio, a verdade contida nas falas de Fernanda Kaingang, do Potiguara Luis Katu, do Xavante Cristóvão, da Tapuia Eunice, do Karajá Wahua, do tapuia Wellington e outras lideranças com que tive oportunidade de aprender e interagir na Tenda Multiétnica, durante o 28º Festival Internacional de Cinema Ambiental. Há uma guerra em andamento, e nós, os brancos desavisados, somos os mercenários de aluguel.

Para eles, para os povos indígenas do Brasil, esta guerra já dura mais de 500 anos. E para nós, que estamos sendo chamados a acordar para esta realidade, não há como ficar omisso. É necessário, até por autoproteção e egoísmo, que nos somemos à luta dos povos indígenas, em defesa da vida.

Daí esta mensagem.

Daí a opção de não comentar sobre escândalos como a mais recente ofensa do inominável ao Supremo Tribunal Federal, como a tentativa de compra de sistema de vigilância israelense  para ameaça de todos os democratas, como a inflação, e as novas denúncias de tragédias estimuladas por posturas deste governo, envolvendo a venda da Eletrobras, o avanço da fome e o sumiço de indigenista e jornalista críticos aos crimes contra o ambiente os povos da Amazônia, entre outros fatos assemelhados que ilustram a loucura dos senhores da guerra e a apatia de seus servos.

Também optei por não comentar as falas de Aldri Anunciação no programa Arte, Ciência e Ética num Brasil de Fato. Mas recomendo que o assistam. Autor da distopia Namíbia Não, que deu base ao filme Medida Provisória, Aldri vai além de crítica à continuidade disfarçada do racismo no Brasil. Ele desenha, a partir dali, tragédia que oprime a limites desumanos todos os grupos discriminados desta terra. É clara a ligação de seu texto com o que vem ocorrendo a povos indígenas, que por resistirem em sua terra original estão sendo enviados, literalmente – e em massa – para o mundo dos espíritos.

Enfim, optei por falar do que apreendi no FICA.

Foi uma decisão por compromisso, instigada em palavras de Fernanda Kaingang.

Ela perguntou, e eu repito: como podemos atribuir respeito a lideranças que ignoram não apenas o sofrimento das pessoas como também as leis impressas, criadas por eles e nas quais os povos se obrigam a confiar? Como aceitar promessas de quem desrespeita ou modifica, em interesse próprio, leis que afetam a todos? Por que, neste contexto, pessoas adultas deveriam abrir mão de direitos e deveres milenares, que embora não escritos, são sagrados?

Por isso tudo, há que reconhecer a dura verdade: vivemos um tempo de guerra. Aquela opressão à que secularmente estão submetidos os índios e os negros, agora se estendem a todos que não são cupinchas dos amigos do mito. E se descuidarmos disso, sem dúvida, em breve estaremos diante do dia do juízo final.

Então, vale repetir aquelas palavras sábias, que objetivam espantar a paralisia dos que têm medo. Quem não morrer jovem, de velho não passará.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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