O amor acolhe a alma – traições, fé e fome de viver em paz (por Leonardo Melgarejo)

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Mais uma semana repleta de novidades à brasileira. 

A visita do cara mais rico do mundo, simpático a golpes de Estado, ao político mais abjeto do planeta, que é nosso e nos ameaça dia após dia, com radicalização do golpe de 2016. Suas mentiras, sua incompetência e seus atos falhos evidenciam que não apenas as merece como está ciente das punições que faz por merecer. 

A fome, ameaçando matar mais brasileiros do que a pandemia, o desfazimento do controle sobre a produção e distribuição de energia. Os venenos, o desemprego, o medo e a inflação crescentes, sublinhadas por reações populares em feiras, ruas, shows e redes. 

Ou, no rumo oposto, a paz emanada do casamento de Lula e Janja e do amor que ali resiste e insiste em apontar para a certeza de um futuro melhor.

São muitos assuntos.

Com isso, se faz difícil manter um foco e dar coerência a um comentário de página e meia. Felizmente depois de começar, basta persistir. Então vamos lá. Escolhendo alguns fios e tentando costurar com eles algo que dê coerência ao pouco que conseguimos enxergar no turbilhão que nos carrega.

Nesta semana o brasileiro Gabriel Tarso em protesto inédito abriu, no topo do Everest, ponto mais elevado do planeta, sua faixa de Fora Bolsonaro. E ainda dedicou aquele esforço e realização aos brasileiros “que nunca se calaram nos últimos 4 anos, mas especialmente àqueles que silenciaram suas vozes. Àqueles que, assim como eu, aprenderam da forma mais amarga que todo silêncio tem seu preço”.

Em paralelo, na feira de Guará, enquanto o inominável engolia seu pastel, o povo enrouquecia de tanto gritar Fora Bolsonaro. Em Brasília, no show de Ney Matogrosso, a mesma coisa. 

Alheia a isso tudo, a esposa do inominável viajava a passeio a Israel, levando de carona seu personal maquiator. Ela deve mesmo gostar dos serviços do cara, que de lá brindou ao mundo foto se refestelando no mar morto. Escrevo isso sabendo que ele já havia acompanhado a primeira dama em outras viagens. Busca rápida mostra caronas, às nossas custas, pelo menos em viagens a São Paulo e Montevideo

Aliás, o fato está bem de acordo com anúncio de que nas últimas férias com despesas também pagas por nós, aquela família gastou aproximadamente 83 vezes o valor dispendido por Lula em seu casamento. Ainda assim, vale lembrar que os invejosos não só esquecem aquilo como ainda afirmam que o casamento Lula-Janja mereceria correções por ser luxuoso e elitista.

Enquanto isso, entre nós avançam a fome e as mortes, o envenenamento lento dos que não passam fome, a privatização de energias vitais para a nação e a inflação.

Que relação pode haver entre isso, o esfumaçamento de nossos sonhos e esperanças, aqueles desperdícios e aqueles gritos e as tantas outras faixas de Fora Bolsonaro?

Claramente, a inflação que nos últimos 12 meses já passa dos 12% não apenas amplia a miséria dos pobres como rói a poupança dos remediados, é resultado deste governo. Ou não é? 

Como o povo poderia encontrar sentido em fazer sacrifícios no presente para construir defesas à própria vida, no futuro, com este quadro de inflação e desemprego crescentes? Que sinalizações estão sendo apresentadas?

Na prática, quase todos percebem que a retração nas possibilidades de colocar comida na mesa se choca de forma ofensiva com os anúncios de festas do agronegócio, pelas exportações de comodities. As lavouras de soja, cana e algodão avançam sobre áreas de floresta, mas também – e principalmente – sobre as terras utilizadas para produção de alimentos. A redução nas áreas cultivadas com arroz, feijão e mandioca fazem sumir estes produtos e crescer os preços dos alimentos. A fome tem a ver com isso, e a culpa é do governo e suas politicas. Ou não é?

Aliás, segundo a CEPAL já podemos esperar mais mortes por fome do que por covid. Nada de novo no Brasil, onde desde 2018 especialistas denunciam o aumento de uma fome generalizada que entre nós já em 2020 empurrava mais da metade das crianças de até 4 anos para a tragédia da insegurança alimentar. A quem responsabilizar?

Atualmente se sabe que crescem também os riscos de intoxicação por ingestão de agrotóxicos entre os que não passam fome. Os mecanismos utilizados pelo governo, para minimizar ou mesmo ocultar este drama estão sendo desmascarados até porque os venenos comprometem a qualidade da água de consumo humano.

O que pensar de um governo que fomenta esta realidade? Que referencias ele adota e que modelos de comportamento ele estimula? 

O que pensar da coerência entre ameaças envolvendo tentativas de corrupção de rotinas eleitorais consolidadas, e mentiras ofensivas à realidade no caso dos incêndios florestais?

O que pensar do atiçamento a desvarios, entre hipnotizados que se armamtreinam para combate, e se atrevem a descer do carro de arma na mão por qualquer motivos banal?

A quem cabe responsabilizar pelo padrão de incivilidade que avança, neste simulacro de democracia onde as pessoas emitem opinião sacando o revólver?

O que pensar de tudo isso?

Claramente os horizontes de humanidade se encurtam sob as ações deste governo que estimula as discriminações, o medo e a arrogância como modelos de conduta.

O que dizer do líder, que se rebaixa a bajular poderosos distribuindo medalhasQue se orgulha de compulsão que o leva a vomitar palavras, em confissões vergonhosas, reveladoras de anseios e medos, em frases de todo tipo

São prisioneiros de si mesmos, enredados em casulos que não lhes permite enxergar além das próprias fraquezas, do próprio umbigo.

Felizmente para outro perfil de brasileiros, que são maioria, os horizontes se alargam. 

É o caso dos que gritam, escrevem e acenam com faixas e cartazes de Fora Bolsonaro. São aqueles que encaram e vencem seus morros do Everest, abrindo os braços e o coração em mensagens de esperança para os que ainda não conseguem ver ou sonhar com um futuro mais tranquilo.

É o caso dos que se casam aos 75 anos ou em qualquer idade.

Deles recebemos aquela onda de energia que emana dos que se dispõem inclusive a retardar seus momentos de felicidade pessoal, para contribuir no enfrentamento de dramas que ameaçam o presente e o futuro de todos.

As fotos do casamento de Lula e Janja são tão simbólicas a respeito disso que vale encerrar este comentário não com Betânia, cantando Carcará em função da fome, mas sim com aquela música que meu irmão e minha cunhada escolheram para embalar o seu próprio matrimônio.

Com os Tribalistas, Amor Y Love You.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL

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