Afundamos como civilização e como nação, mas esta é nossa cidade (por Leonardo Melgarejo)

Hoje quero recomendar leitura dos textos de José Falero e Alexandre Cardoso (Alex Catador). Para conhecê-los melhor, vejam entrevistas nos links nos nomes acima.

Penso que os textos destes gaúchos ajudam a acordar a cidadania adormecida em nosso ambiente. Eles trabalham com descritores de suas vidas, fiéis ao presente onde estamos todos atolados por conta de nossa própria miopia, apatia e irresponsabilidade. 

Os livros a que me refiro são, De Lixo a Bixo , Mas em que mundo tu vive? e Os Supridores, e falo apenas destes porque ainda não li o Vila Sapo. Afirmo que os textos são candidatos à prateleira dos clássicos gaúchos, e por isso devem ser lidos desde já.

Sem minimizar a importância de outros escritores de nossa terra, quero reafirmar: temos aqui obras que nos ajudam a entender, com leveza, humor e clareza, características da universalidade doentia presente em Porto Alegre. Características que podemos não perceber, mas nos envolvem, nos sufocam e devem ser enfrentadas com urgência.

Não é só aqui, que isso ocorre, por isso afirmo que os textos têm universalidade. Afundamos como civilização e como nação. Mas esta é nossa cidade. 

Aqui existimos como gente. E estes livros nos ajudam a acordar para o que isso significa.

Alex Cardoso integra o MNCR e a Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis da Cavalhada – ASCAT / Foto: Thomas Lohnes/Arquivo Pessoal

Não se trata apenas de estarmos mergulhados em um ecossistema em franca degradação, onde se consolidam divisões que desenham vários tipos de inferno. O buraco é mais embaixo, e mais fundo. Aqui os níveis são consentidos por pessoas que talvez pensem estar se beneficiando de uma realidade onde patinam, mentindo para si mesmos, para seus filhos e seus netos. Uma realidade que transfere o ruim de hoje para um futuro cada vez pior.

Gente que não percebe sua responsabilidade para com o que se passa. Gente que não se percebe cúmplice de um mecanismo onde boa parte da juventude está sendo destruída pela imposição de dilemas tão cruéis como a falta de água para beber, qualquer coisa para comer, um lugar seguro para dormir, ou até para morrer sem o risco de ser roído por ratos. 

Avança, na surdina, e sob o rito de que “Porto Alegre é Demais”, a degradação da capital gaúcha. Se amontoam os excluídos, as disputas de gangues, os toques de recolher, as ameaças de morte e o empenho oficial para para disfarçar esta realidade. Vivemos sob administrações públicas que parecem acreditar em soluções mágicas, onde o que não é visto tenderia a desaparecer por si.

Assim, avança uma espécie de degradação moral validada pela postura de homens públicos incoerentes, que parecem dar pouco valor à conexão entre suas próprias falas e atitudes. 

Pois bem, os livros de Alex e Falero tratam de outro tipo de gente. 

Falam sobre pessoas que, percebendo-se acossadas por uma realidade crescentemente adversa, não se dobram a ela. Valorizando sobretudo o que parece faltar a nossos últimos prefeitos e governadores, os personagens citados tiram da coerência, nas atitudes, a certeza de que – em qualquer desfecho – será enorme a vitória dos que  não desistem.

Mesmo percebendo a confluência de discriminações e limitações que lhes são impostas, refreiam uma revolta justificada e tratam de mostrar – naqueles livros – o que vem acontecendo no mundo real, para a maioria. Jovens que abandonam a escola para trabalhar. E que em seu trabalho muitas vezes, com fome, tratam de manter limpas as ruas de bairros onde os pets têm acesso a rações especiais e ar condicionado. Jovens que vivenciam os olhares desconfiados de seus iguais, que trabalham como guardiões de mercadorias a que não têm acesso. Jovens que buscam saídas nos espaços que a sociedade oferece, na solidariedade possível que conseguem construir, nos ambientes insalubres e perigosos que a eles são reservados.

Jovens que crescem conscientes de suas escassas possibilidades em vida, e se perguntam: como mudar o destino de cada um, se não mudando o de todos?

Os livros nos falam de negar a premissa que diz que somos frutos do meio e reafirmam, com fé, a existência de outros caminhos. De rotas através das quais as pessoas possam vir a ser produtos de si mesmas, e evoluir em grupo, contra as pressões do meio. 

Trata-se de dizer não, no coletivo. E assim recusar a tristeza de viver biologicamente como animais tutelados. Trata-se de caracterizar a quem beneficiam crimes e deboches como a corrupção nos ministérios do Meio Ambiente, Saúde, Educação e Justiça, ou as compras de próteses penianas, picanha e Viagra, nas forças armadas. Trata-se de recusar o fascismo e assumir que depende de nós o aprendizado e a evolução em vida. Essencialmente, neste e em todos os ecossistemas, cabe à consciência humana barrar a degradação alavancada por este governo e ajudar a história a cumprir seu papel, descartando os canalhas e multiplicando as conexões solidárias.

Aqueles livros nos dizem que a conscientização é o primeiro passo. E que ela alimentará valores que evoluirão conforme formos valorizando e nos identificando com tendências que se expressam na luta do que está sendo contra o que pode vir a ser, no território onde vivemos. 

Os livros aqui recomendados são de gente nossa. E nos mostram que o conhecimento é uma base que se expande quando leva a ações comprometidas com a superação das iniquidades.

E que será preciso ter fé e garra, para entender, enfrentar e corrigir a hipocrisia dos grupos que dominam nossa cidade, estado e país.

A música hoje é “Bicho de Sete Cabeças”, de Elba Ramalho e Geraldo Azevedo.


* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Marcelo Ferreira

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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