Uma mulher na liderança dos petroleiros

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A engenheira mecânica Miriam Ribeiro Cabreira, 37 anos, será a primeira mulher a dirigir o Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Sul (Sindipetro-RS) desde a fundação da entidade, em 1963. “A indústria petrolífera ainda é um ambiente majoritariamente masculino. As mulheres são16% da categoria petroleira. Minha eleição é reflexo de uma construção coletiva por mais espaços e conscientização”, afirma. Ela foi eleita no dia 17 de dezembro, com a chapa Unidade Petroleira, apoiada pela Federação Única dos Petroleiros (FUP), que venceu a eleição para a Diretoria e Conselho Fiscal do Sindipetro-RS, para o triênio 2022-2025.

A posse será no dia 3 de fevereiro. Servidora concursada desde 2007, Miriam é técnica de Operação do Craqueamento da Refap, em Canoas, e atua no movimento sindical há dez anos. Atualmente é integrante da diretoria colegiada do Sindicato e suplente da Federação Única dos Petroleiros (FUP). Ao Extra Classe, a dirigente destaca a luta pela manutenção da Petrobras estatal e pública e avalia que os trabalhadores vivem um “momento sombrio”, com desemprego, redução da renda e aumento da jornada.

Extra Classe – Ao ser eleita, a senhora destacou que os petroleiros enfrentam um dos piores momentos da história da categoria. Por quê?

Miriam Ribeiro Cabreira – É um momento sombrio pois é de fortes perdas da classe trabalhadora. Ao longo desses cinco últimos anos, os trabalhadores em geral têm sofrido com desemprego, redução na renda e aumento na carga e jornada de trabalho. Para a categoria petroleira não é diferente, foram anos de intensas lutas para manter os direitos conquistados no Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), mas acabamos acumulando várias perdas devido à conjuntura bastante difícil.

EC – O Acordo Coletivo 2021/2022 firmado entre a FUP e a Petrobras prevê um reajuste salarial de 10,42% em setembro.

Miriam – Esse percentual não repõe as perdas, pois foram vários anos sem reajuste ou com reajuste abaixo da inflação. Nesse acordo de dois anos, no primeiro ano não tivemos nenhum reajuste e no segundo apenas a reposição da inflação. Paralelo a isso, várias parcelas que nós contribuímos, como a parcela do plano de saúde, tiveram reajustes imensos, muito acima da inflação, aumentando as perdas salariais.

EC – Como sua gestão irá lidar com os ataques e desmonte da Petrobras?

Miriam – Em se tratando de Petrobras, a empresa tem sofrido muitos ataques e um desmonte sem precedentes. Os petroleiros vêm resistindo a esse desmonte, em diversas frentes. Na gestão que assumirei em 2022, desejo que as marcas sejam a recuperação dos direitos, mas principalmente, a retomada da Petrobras como uma empresa indutora do desenvolvimento do Brasil, como foi no passado recente.

EC – Desde 2016, a política de preços da estatal está atrelada à variação do valor do barril de petróleo no mercado internacional e do dólar, o que provocou o descontrole de preços ao consumidor. Quem está ganhando?

Miriam – Essa política de preços é parte da estratégia do desmonte da Petrobras. Uma das intenções desse governo é privatizar as refinarias e seus terminais. Para que o mercado seja atrativo, é necessário que a população pague o Preço de Paridade de Importação (PPI). Mas a Petrobras não precisaria praticar esses preços, pois ela é uma empresa integrada do poço à refinaria (não mais do poço ao posto, pois privatizou a BR Distribuidora). Mesmo assim, ela poderia fazer a composição dos preços dos combustíveis com base nessa cadeia. É evidente que deveria se considerar o preço do barril de petróleo e do dólar, mas não atrelado diretamente como é hoje. Por isso, o consumidor tem sofrido com os sucessivos aumentos, dólar e barril do petróleo vêm em trajetória de alta constante.

EC – Como equacionar isso?

Miriam – Para reverter, é preciso barrar a privatização das refinarias e mudar a política de preços praticada pela Petrobras. Isso não geraria prejuízo a ela, apenas reduziria o lucro, basta ver que esse ano a Petrobras tem distribuído lucros exorbitantes.

EC – Considerando que o ambiente da indústria do petróleo é um território dominado por trabalhadores homens, o que representa a eleição de uma mulher petroleira para um cargo diretivo?

Miriam – É um grande desafio, pois a indústria petrolífera ainda é um ambiente majoritariamente masculino. As mulheres representam 16% da categoria. A Refap é a refinaria onde teve a primeira turma de mulheres na área operacional, ainda na década de 1980, e desde os anos 1990 elas também têm uma participação ativa no sindicato. Mas eu ser eleita presidente é um reflexo de uma construção coletiva. Desde 2011, as mulheres da nossa categoria têm se organizado num coletivo com o objetivo de trazer mais mulheres para a luta, dar formação para que possamos ocupar esses espaços, com exigência de cotas nas direções da FUP e sindicatos e participação nos congressos. Acredito muito nessa construção coletiva, pois além de assumir os espaços, é necessária uma rede de apoio, pois o machismo ainda é muito presente. O processo de conscientização é lento, mas está ocorrendo.

EC – Entre os petroleiros, qual é o sentimento e a posição em relação às críticas, o desmonte e as tentativas reiteradas de privatização da Petrobras?

Miriam – Majoritariamente, a categoria é contra a privatização. A Petrobras constantemente passa por ciclos, desde sua fundação. Inclusive, a própria fundação da empresa foi objeto de disputa tão forte que foi citada na carta-testamento de Getúlio Vargas. Na história recente, vivemos um período de desmonte nos anos 1990, nos anos 2000 foi período de crescimento e investimento, que levou a descoberta do pré-sal. A maior parte da categoria hoje é dessa geração, pós anos 2000. Em 2013, a empresa tinha cerca de 86 mil trabalhadores próprios, hoje estamos com cerca de 40 mil. Além de descobrir e desenvolver a tecnologia para o pré-sal, também construíamos as plataformas aqui no Brasil. Em Rio Grande, o polo naval chegou a ter 30 mil trabalhadores. Então, ver a empresa sendo vendida, ver cada vez menos trabalhadores, os trabalhadores terceirizados cada vez mais explorados por contratos muitas vezes inexequíveis, fortalecem na categoria o desejo de defender essa empresa e fazer ela voltar a ser o que foi.

EC – Por que a Petrobras deve permanecer pública?

Miriam – Hoje a Petrobras não se comporta como uma empresa pública, tem atuado fortemente para distribuir lucros aos acionistas. Com isso, em seus últimos planos estratégicos, pretende se tornar uma empresa exportadora de petróleo cru (do pré-sal) e ficar com algumas refinarias no Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo). Isso coloca em risco a Petrobras como empresa. As empresas de petróleo no mundo não atuam dessa forma, pois crises do petróleo dependem de diversos fatores geopolíticos e por isso as empresas buscam se integrar na cadeia – exploração, refino, distribuição, petroquímica.

EC – Qual a importância estratégica da estatal?

Miriam – No cenário de pressão para transição energética, as empresas de petróleo têm buscado investir em fontes de energia limpa. Infelizmente, a atual gestão da Petrobras, sob o comando desse governo está fazendo exatamente o contrário. Por isso, a categoria petroleira defende que a Petrobras retorne ao seu papel de empresa estatal, voltando a investir no Brasil para fornecer combustível a preço acessível à população, construir os equipamentos e desenvolver tecnologia no país para gerar esses empregos aqui, além de voltar a pensar numa empresa de energia a longo prazo e atuar verdadeiramente na transição energética. A categoria petroleira acredita tanto na Petrobras que nós criamos e financiamos um instituto de pesquisa para pensar o setor petróleo, o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo (Ineep).

Edição: Extra Classe

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