Você tem fome de quê?(por Leonardo Melgarejo)

Nesta semana a esposa do presidente recebeu mais uma medalha.

Já é a terceira que ela conquista, nos últimos seis meses.

E seu marido? Ah… ele acabou de vencer eleição popular da revista Time, para a personalidade do ano 2021.

É bem verdade que houve um “vote em mim”, que o rebanho ajudou, que a decisão final só saberemos na próxima semana e que a distinção caberá àquele que “mais afetou as notícias ou vidas, para melhor ou pior, durante os últimos 12 meses”.

Imaginei a festa, com a ema, a branca de neve, os anões e tantos outros pets se esbaldando em guloseimas pelo gramado. E então me vieram as imagens do que se come por lá.

A julgar pela mídia, eles gostam mesmo é de comer em pé. E preferem facilidades como pizzas, cheeseburguers, salgadinhos, refrigerantes e outros “alimentos” ultraprocessados. Aquela picanha de R$ 1800 o kg não conta. Foi coisa de momento especial em consideração ao descuido da fraquejada. E é compreensível. Como nós, eles também economizam aqui e ali para poder gastar lá e acolá, não é verdade? E afinal, por que não? Se entende, quando ele diz “Quando eu vejo a imprensa me atacar dizendo que eu comprei R$ 2 bilhões em leite condensado (R$ 1,8 bilhão), vai para puta que pariu. Imprensa de merda essa daí. É para enfiar no rabo de vocês aí, vocês não, da imprensa. Enfiar no rabo essas latas de leite condensado”. Ele sabe o que quer, do que gosta, e como se comunicar.

 Mas provavelmente não sabe o que são os ultraprocessados.

E de fato, nesse quesito daí não é só ele que precisa ser alertado. Poucos sabem que os ultraprocessados fazem mal para saúde e ainda contribuem para o aquecimento global. Aliás, este é outro tema super delicado para nosso governo. Basta lembrar que na COP 26, o Brasil deixou claro que quer grana sobre grana, para cumprir sua parte no acordo de Paris. Doações de US$ 100 bilhões por ano não bastam, afirmou nosso ministro. E neste caso, já que os outros governos parecem não confiar muito em nós, talvez a famiglia possa ajudar, fazendo algo no tocante a isso daí dos ultraprocessados.

Argumentos não faltariam.

Tudo indica que pelo menos 30% da emissão de gases do efeito estufa resulta do modelo de produção agropecuária que domina nosso território. As queimadas, o ecocídio, a volta da fome, o envenenamento das águas, a emissão de gases e o poder da bancada dos BBB seriam alguns dos efeitos colaterais que a padronização imposta pelo agronegócio vem acarretando sobre nossas vidas.

As quantidades descomunais de agrotóxicos, adubos químicos, água boa e energia cara, jogados anualmente em milhões de hectares ocupados com lavouras de soja, milho, trigo, e cana-de-açúcar ajudariam mesmo a matar a fome do mundo?

Comemos aquilo?

Bem, não há quem ignore a importância do nosso agro, para a alimentação de porcos, bois e galinhas sacrificados no além-mar.

 Mas não é pouco o que fica por aqui, daquelas safras, metamorfoseadas de coisas bonitas, gostosas e baratas, que crianças e os adultos desinformados costumam adorar.

São os “alimentos” ultraprocessados. Eles dão corpo a uma espécie vistosa de ração diversificada, sofisticada e muito bem embalada, superatrativa para o bicho homem.

O nome “ultra” vem das manipulações envolvidas em seu preparo. A partir de produtos de lavoura, como milho e soja transgênicos e possivelmente contaminados por agrotóxicos, as empresas produzem pastas nojentas e com elas “montam” vasto cardápio de “coisas” destinadas ao consumo humano.

O toque de magia está na agregação de substâncias muito estranhas, de nomes incompreensíveis, que fornecem as cores, texturas, sabores e perfumes dos diferentes tipos de gostosuras que pretendem simular. Nuguets de peixe, sem peixe, salsichas de tudo, nectares de frutas, sem frutas, torresmos, lasanhas, chicletes, balas, bolachas, fraldas para bebes, tinta de parede, cola de madeira, etc. etc.

Possivelmente é por esta plasticidade e agregações capazes de enganar nossos sistemas de saciedade e defesa, que os “alimentos” ultraprocessados estariam entre as principais causas de doenças crônicas não transmissíveis, hoje  responsáveis por 71% das mortes globais. Aí podem ser computados outros estímulos a comorbidades que agravam riscos de vida em sequelados da covid e outras tragédias. Obesidade, diabetes, depressão, vários tipos de câncer, ansiedade, disfunção renal, etc. etc. etc.

O que explica o fato do Homem do Ano e tantos cidadãos comuns, como nós, cairmos nessa armadilha?

Somos vítimas de nossa confiança e de autoridades irresponsáveis, que nos iludem com campanhas de desinformação. Somos seduzidos por imagens positivas e falas de pessoas lindas e saudáveis, ou feias, mas famosas, que apresentam aquelas rações como algo maravilhoso, barato e do interesse das pessoas inteligentes e ativas, que não têm tempo a perder com bobagens.

É fácil entender que isso funciona. Afinal, o mesmo agronegócio que desloca a produção de alimentos, amplia a insegurança alimentar e é responsável pelas queimadas, pelo ecocídio, pelo inseticídio, não se vexa de afirmar que as abelhas são agro, que os orgânicos são agro e que o agro, além de pop, é tudo. Nada mais, nada menos, do que tudo, é o que eles dizem. E milhões acreditam.

Em breve, com certeza dirão que o negrinho do pastoreiro, o sepé tiraju, o boitatá, a salamanca do jarau e a mula sem cabeça também são agropop, e que se pudessem escolher, iriam preferir alimentos ultraprocessados.

Felizmente, há uma saída. Algo que depende de nós.

Precisamos e podemos parar de comprar estas porcarias.

Precisamos e podemos apoiar a agricultura familiar, as feiras orgânicas, os circuitos curtos de comercialização e os políticos que se comprometerem com avanços nesse sentido.

Precisamos nos firmar como cidadãos conscientes, que em defesa da saúde dos nossos, faremos de tudo para eleger governadores, deputados e presidente comprometidos, para começo de conversa, com a aprovação do PL 6670/2016, que institui a política nacional de redução de agrotóxicos.

E na sequência, precisamos jogar no lixo da história, de uma vez por todas,  aqueles maus exemplos.

Afinal, a gente não quer só comida.

O tema dos ultraprocessados se soma a outras avaliações incluídas em “Comida de Verdade – produção local, Saúde e Planeta”, publicação do Centro Ecológico (publicação prevista para janeiro 2022). Para completa descrição de riscos relacionados aos ultraprocesados e acesso a bibliografias suplementares, ver DIÁLOGO SOBRE ULTRAPROCESSADOS: SOLUÇÕES PARA SISTEMAS ALIMENTARES SAUDÁVEIS E SUSTENTÁVEIS e outros documentos do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) e da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, Universidade de São Paulo (USP).

Em tempo!! recebi agora, após postagem do texto, e recomendo: não deixem de ver este vídeo, e se inscrevam no canal!!

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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