Pode apostar, os estudantes fazem o futuro amanhecer (por Leonardo Melgarejo)

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Acompanhei esta semana Aula Inaugural promovida pelo Campus Laranjeiras, da Universidade Federal da Fronteira Sul, que me foi de extrema valia. Penso que talvez possa interessar a algumas pessoas que acompanham o Brasil de Fato, onde a regra é de inconformidade com a discrepância entre o valor potencial e o acanhamento efetivo, do Brasil atual, para o enfrentamento de problemas locais e globais.

Em nível local, estou me referindo a problemas tão grandes como a volta do país ao mapa da fome, com multidões de desempregados vagando pelas ruas, com os 600 mil mortos e talvez milhões de sequelados pela covid. Com a falta de água, de luz, de gás e com o esvaziamento da confiança em um futuro melhor.

Problemas tão grandes, na acepção global, que passam a ser apontados como indicadores da “sexta extinção em massa”. A quinta, há uns 66 milhões de anos, foi fruto daquele meteoro que acabou com os dinossauros, mas não destruiu as baratas.

A sexta grande extinção, que decorreria de ações humanas, estaria sendo evidenciada pelo acelerado desaparecimento de espécies, pelo surgimento de doenças, pelo aquecimento global, o envenenamento das reservas de águas, as migrações em massa, a esterilização de pessoas, as deformações genéticas, a desertificação dos solos agrícolas, etc., etc.

Culpa provada, da humanidade. Idiotice geral, ampla e irrestrita deste que seria o único ser vivo capaz de fazer e manter promessas, de planejar, de compreender as implicações de acontecimentos e atuar no sentido de corrigir os próprios erros, de corrigir e evitar catástrofes.

Por que, então, avançaria o antropoceno onde a humanidade atua como força geológica que se revela a maior das ameaças à todas as formas de vida que compõem Gaia?

Pois bem, o professor Guilherme Delgado sugere que vamos mal porque estamos apostando nos estímulos errados.

Nos links recomendados, ele explica que os elementos de motivação de agentes que operam a economia de mercado, no modelo capitalista, precisam ser substituídos. Isso porque aqueles estímulos induzem à adoção contínua de inovações que, por sua lógica operativa e “natureza” funcional, alimentam e aceleram as crises locais e globais. Fariam isso com argumentos que se sustentam pela ocultação de implicações decisivas. Aquelas inovações estariam ampliando a eficiência técnica de algumas atividades e excluindo outras, desprezando fatores de custos socioambientais. Nesta perspectiva, se gerariam cadeias de negócios interligados onde a obsolescência planejada e a destruição pura e simples seriam “de utilidade” para o desenvolvimento global. A substituição contínua de tudo que é produzido e inutilizado, abriria novos mercados, retroalimentando ciclos de “desenvolvimento” pretensamente virtuosos. Porém insustentáveis, pelo motivo óbvio: os recursos globais são limitados e a destruição de recursos naturais tende a ser definitiva.

Vou exemplificar: a torre da catedral de Notre Damme, depois de queimada, foi reconstruída. O rio Doce jamais voltará a ser o que era. Outro exemplo: um avião que cai, matando centenas de pessoas, gera mais empregos e renda do que milhares de voos seguros com o mesmo avião. A “destruição criativa” amplia o PIB e contribui para uma ideia de desenvolvimento que se apoia no estímulo a inovações no trabalho de equipes de engenharia, seguradoras, escritórios de advocacia, etc. Algo parecido ocorria naquela prestadora de serviços de saúde, onde as mortes de pacientes ao acelerar a rotatividade de ocupação nos leitos de UTI, reduziam custos e ampliavam a lucratividade empresarial.

O problema deste sistema de estímulos a ganhos privados, ao orientar economias de mercado pautadas por preços de formação discutível é que ele acaba gerando destruições permanentes, sob o ponto de vista moral, ético, social e ambiental. E o professor Delgado trata disso, examinando o nosso pujante agronegócio.

De base, ele nos lembra que o avanço nas exportações de soja e outras commodities está ampliando o uso de agrotóxicos que envenenam a água que todos bebemos. Isto se associa também ao genocídio de povos indígenas, ao ecocídio dos biomas, às queimadas, à crise energética e ao avanço da fome. E qual a base? A adoção, patrocinada pelo governo, de tecnologias e inovações que prometem vantagens ao Brasil, desde o início da revolução verde, mas entregam exatamente o oposto, e em escala cada vez mais dramática.

Que desenvolvimento é esse onde crescem, no melhor exemplo da destruição criativa, apenas o mercado de armas, o poder das milícias, os casos de câncer infantil, a puberdade precoce, a fome, a miséria e tudo que nos ameaça? O que pensar em relação a este ano de supersafra, onde 20 milhões de brasileiros passam fome, 60 milhões se alimentam mal e para completar a União Europeia anuncia proibição da importação de commodities obtidas em áreas desmatadas que sustentam o avanço do agronegócio?

Pois bem, nos links recomendados Guilherme Delgado propõe reorientação no sistema de estímulos oferecidos por nossos governos, aos operadores do não tão nosso agronegócio. Vejam lá os detalhes e as fontes. Considerem aqui, no resumo, que se trata de frear a adoção de inovações que aceleram o aquecimento global, o desmatamento, o envenenamento das águas, a contaminação dos solos e o avanço da fome. Se trata de reorientar os Planos Safra, que financiam o agronegócio brasileiro há 50 anos, e às custas de nossos impostos consolidaram entre nós tanto a revolução verde como a Bancada Ruralista e a mitologia tosca, de que o Agro é Tudo.

Na proposta, resulta claro que precisamos criar mecanismos de estímulo à adoção de inovações que protejam as aguadas, reduzam o uso de agrotóxicos e a emissão de gases de efeito estufa, ampliando a oferta de alimentos saudáveis e recuperando serviços ecossistêmicos em acelerada degradação. Sem dúvida, um novo paradigma, de ecodesenvolvimento. Em termos práticos: partir de um zoneamento agroecológico, com base em dados dos Censos, complementados por informações primárias (se e onde necessário), atentando para particularidades de cada meso região do IBGE. Dados disponíveis, que permitem mapear as manchas de maior necessidade e ali priorizar ações com respeito às condições locais. Na sequência, definir e pactuar indicadores de impacto das atividades do agronegócio, em cada região, levando em conta suas contribuições positivas ou negativas, para o uso/conservação da água, a emissão de gases, a dispersão de agrotóxicos. Estabelecimentos que ampliassem os problemas monitorados a partir daqueles indicadores, seriam penalizados. Estabelecimentos que contribuíssem para redução dos danos médios, em enfoque regionalizado, seriam privilegiados (condições especiais de créditos, seguros, etc.). Estabelecimentos identificados como alheios ou imunes aos objetivos da nova política, sendo responsáveis por crimes ambientais relacionados à dilapidação de bens comuns, não estariam cumprindo sua função social e seriam desapropriados com base no artigo 186 da Constituição federal.

Uma grande e instigante aula, que nos faz ver quão perto podemos estar de um Brasil mais decente, e que somos todos estudantes, em busca de melhor compreensão sobre nosso papel e responsabilidades, em vida. Vejam lá, naqueles links, a que me refiro. E vamos nos preparando para ajudar na construção do Brasil novo, que os jovens merecem.

Aliás, nesta mesma semana, em outra atividade com alunos, desta vez do Instituto Federal do RS, escutei e repasso com alegria, esta belíssima canção.

Estudantes (de Flaira Ferro) por Carolina Possa e Cleiton Oliveira.

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

Edição: Katia Marko– Brasil de Fato-RS

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