​​​​​​​A ignorância é a prisão, a educação é a chave (Por Leonardo Melgarejo)

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Nesta semana em que a CPI da Covid concluiu seus trabalhos, indiciando 72 pessoas ligadas ao genocídio brasileiro, que passou a ser chamado de crime contra a humanidade, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre  foi invadida por fascistas, e uma cozinha solidária  foi fechada por ordem judicial, restando evidente que a humanidade afunda no lixo que ela inventou e que suas elites alimentam.  

Este é o tema da coluna de hoje.

Trata-se de uma percepção triste: a humanidade inventou a discriminação e com ela uma simetria entre a escassez e os desperdícios. A humanidade inventou a miséria e o lixo. E o lixo, causa e consequência da corrupção do espírito humano, agora avança em todas as frentes, ameaçando destruir a humanidade.

Dos amontoados de sobras, descritos no filme Ilha das Flores, onde os porcos, que têm dono, recebem acesso prioritário às crianças, que têm fome, evoluímos para caldas tóxicas dispersas por aviões, matando lagos, rios e os mares, desencaminhando genomas, corações e mentes.

Estão poluídos os cérebros que se empenham em ocultar a vergonha nacional estampada no fato escabroso de que, em nosso país, não apenas a fome, mas também várias outras tragédias são siamesas de um agronegócio festejado como “nosso”, embora capturado por interesses e objetivos egoístas, míopes, de curto prazo e alheios às necessidades dos brasileiros.

Em realidade estão reabertas as veias da América Latina, e nosso futuro escoa, oculto na água, no sangue e nos ecocídios que dão suporte à exportação de minérios, grãos e outros produtos de escasso valor real. Resta o lixo, na forma de lideranças irresponsáveis, de rebanhos tresloucados, de resíduos de agrotóxicos, solos inférteis, culturas destruídas e populações descartadas.

Até no Rio Grande do Sul, onde o agronegócio comemora a alta do dólar e os resultados de outra “super safra”, o que mais cresce são mazelas como a ignorância, a fome e a miséria.  

Aqui, ao mesmo tempo em que fascistas invadem a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, sem qualquer repressão policial e brandindo símbolos nazistas, distribuindo socos, xingamentos racistas e até mordidas, em nome de o que entendem ser “seu direito” de espalhar a pandemia, entrando sem máscaras em eventos de massa, uma cozinha solidária do MTST, que distribuía alimento gratuito a moradores de rua, em prédio público da União, abandonado há cerca de 20 anos, foi despejada por ordem judicial e com o apoio de forte aparato policial.

Felizmente, na ausência de governos responsáveis, parcela desvalida da sociedade se organiza em luta contra a carestia. Vemos nisso sinais de um outro país, onde o MST já distribuiu um milhão de marmitas e 5 mil toneladas de alimentos produzidos por assentados e cooperativas da reforma agrária. Vemos grupos emergindo em todos os estados, que como os CONSEAs, Sindicatos e Federações de Trabalhadores, mutirões contra a fome, diversos movimentos e pessoas anônimas se empenhando para suprir a incapacidade, a ineficiência e o descaso do poder público. Recuperação e distribuição de cidadania, amor e esperança é o que mais se vê nestes exemplos de um futuro melhor, necessário e possível.

“A educação não muda o mundo, muda as pessoas e elas transformam o mundo”, afirmou Paulo Freire e repetiu Jaqueline Moll, esta semana, no programa Arte, Ciência e Ética num Brasil de Fato. Vale a pena ver e rever. Ela destacou a necessidade de enfrentarmos a articulação perversa que une o desmonte do sistema educacional, às privatizações de bens e empresas públicas, à desindustrialização da economia e ao avanço do atraso, bem como à expansão de mecanismos de controle voltados ao apaziguamento de pessoas amortecidas pela ignorância.

Quase não percebemos, por isso, a importância de contabilizarmos 20 milhões de brasileiros passando fome, e cerca de metade da população (116,8 milhões de pessoas) em insegurança alimentar, entre os quais a morte avançando de forma acelerada, e elimina, com prioridade os sem reação, os sem escola. Estudo comentado no jornal Le Monde Diplomatic mostra que entre brasileiros favelados sem acesso à escola, a taxa de mortalidade por covid-19 é três vezes maior do que aquela observada (no mesmo ambiente) para aqueles com ensino superior.

A pesquisa “Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras” revela que se os sem escola são pretos e pardos, a diferença de mortalidade sobe para 4 vezes e que, em sendo mulheres, a situação é ainda pior. Trata-se de racismo ambiental impeditivo do acesso à direitos básicos, estimulador de violência doméstica e responsável por tragédias relacionadas à erosão da saúde mental, ao aumento de transtornos psíquicos e à grande perspectiva de morrer por doença, bala, abandono ou fome.

É clara a relação entre estes fatos e a ignorância que acompanha o avanço do fascismo e se expressa nos diferentes estratos sociais. Em Porto Alegre, esta semana, nossa Câmara de Vereadores registrou eventos que não permitem ilusões. Neles, se unem tentativas de apagamento da memória nacional, exemplificada em iniciativa da vereadora Comandante Nádia (DEM), que pretende trocar o nome e a finalidade do Memorial Luiz Carlos Prestes, referência mundial nas lutas contra o fascismo, pelos Direitos Humanos e pela soberania do Brasil e falas racistas gritadas para representantes da bancada de mulheres negras. Para a história, em 2021, se incluem entre nossas façanhas a frase “Tu é minha empregada (…) Eu sou linda, e eu sou loira. E tu é um lixo”

Ignorância, enfrentada com dignidade pela vereadora Bruna Rodrigues (PCdoB) que reafirmou seu orgulho de ser o que é. De já ter sido empregada doméstica, de ser filha de gari e de “estar aqui representando estas mulheres, estas trabalhadoras”.

Vergonha, disse ela, “é ver que a Câmara ainda é um espaço onde o racismo, o machismo e o ódio ao nosso povo se perpetuam”.

Ela tem razão, e a vergonha é toda nossa, que permitimos ao lixo ocupar os espaços que domina neste estado, nesta cidade, neste país.

Música, que repetimos, porque nada é mais importante, hoje, do que termos de volta nosso país. De Carlos Hahn, o Rock dos Raposa.

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