Bioindicadores (por Leonardo Melgarejo)

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Nesta semana em que o bolsonarista Roberto Jefferson chamou o embaixador chinês de macaco, meio que declarando guerra à nosso maior parceiro comercial, que o general Braga Netto, ministro-chefe da Casa Civil, ameaçou a Constituição Federal, depois negou, depois foi reafirmado pela imprensa, e que a ex-bolsonarista Joice Hasselmann, após afirmar ter ouvido Bolsonaro dizer “se eu tomasse uma facada, eu ganhava a eleição”, acordou com dentes e costelas quebradas, convenhamos, não é fácil falar de ecologia.

Mas, como na vida tudo se relaciona, me ocorreu que estamos cara a cara com indicadores sociopolíticos, que devem ser levados muito a sério.

Em certo sentido, eles se assemelham aos bioindicadores adotados pela agroecologia.

Sabemos, por exemplo, que ameaças ao equilíbrio dos agroecocossistemas se fazem anunciar pela presença de organismos que indicam a necessidade de medidas, para contenção e correção dos problemas. Na agricultura, erros de adubação, envolvendo excesso de nitrogênio são seguidos por ataques de pulgões; nos solos compactados surgem pés de guanxuma, as samambaias indicam acidez elevada, e assim por diante.

E no planeta, sabemos que entre as implicações de um agronegócio, festejado no Brasil, se acumulam a degradação ambiental, o aumento da fome e o aquecimento global. Nestes casos, entre os indicadores podemos considerar a emergência de zoonoses como a covid-19, a fila de goianos disputando ossos que iriam para o lixo, as chuvas de agrotóxicos e a campanha bilionária do Agro é pop.

O cotidiano de situações extremas como estas revelam um fato simples: estamos ignorando indicadores da degradação que nos ameaça. Vejam que recentemente foram descobertos, preservados em camadas de gelo que se formaram há 15 mil anos, 28 vírus até aqui desconhecidos pela humanidade. Assim, doenças que migram de florestas destruídas pelo agronegócio para nossas áreas urbanas em breve podem estar sendo reforçadas por pandemias emergentes de um passado tão distante que antecede a organização de nossos mecanismos de defesa biológica.

Trata-se, essencialmente, de entender o que está acontecendo, e agir no sentido de buscar minimização dos danos. Ver, Julgar e Agir, como recomendou Nelsa Nespolo, em entrevista memorável ao Brasil de Fato RS e à Rede Soberania. Ou fazemos algo, dizia ela, ou iremos enfrentar as consequências de nossa ignorância, tolice e covardia.

Neste sentido, o descaso aos indicadores de degradação ética, social, moral, econômica e institucional, que no governo Bolsonaro incluem 540 mil mortos e 130 mil órfãos, reclamam nossa ação esclarecida e imediata. Até porque, como se percebe, nossa tolerância e nossa apatia estão sendo interpretadas como autorização e estímulo ao avanço das iniquidades que nos empurram, dia a dia, rumo a uma completa desumanização.

O impeachment, novas eleições diretas e livres, o julgamento dos criminosos e seus asseclas, a construção de políticas públicas, a reconstrução de uma nação soberana, capaz de estender direitos humanos universais, para milhões de brasileiros hoje tratados como zumbis, precisam ser reivindicados com energia.

E nisso também há de operar um sinalizador inequívoco. Dia 24 de julho, o 24J, nas ruas de todas as cidades do país. Se trata de mostrar ao mundo que já entendemos: a cada absurdo enunciado por indicadores como os do primeiro parágrafo, descemos vários degraus, rumo ao inferno.

Na musica a seguir, do Gabriel O Pensador, sobram indicadores que nao podem mais ser ignorados

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte: Brasil de Fato

Edição: Marcelo Ferreira

Foto: “O descaso aos indicadores de degradação ética, social, moral, econômica e institucional, que no governo Bolsonaro incluem 540 mil mortos e 130 mil órfãos, reclamam nossa ação esclarecida e imediata” – Bruno Kelly/Amazônia Real

*Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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