Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar (Por Leonardo Melgarejo)

Ando meio enojado com os temas dos governantes Bolsonaro, Leite e Melo. Por isso, hoje resolvi não escrever sobre eles. Motivos não faltariam. Temos as mentiras do General da Saúde, na CPI da COVID, as investigações de crimes ambientais do ministro do Meio Ambiente e a privatização da Eletrobrás.

Temos os retrocessos na área da saúde e direitos, com a volta em urgência do vergonhoso PL260/2020 e as privatizações da CORSAN e BANRISUL, coisas que “jamais ocorreriam”, avançando aceleradas no governo Leite.

Temos o prefeito Melo, farinha do mesmo saco, também alheio a compromissos assumidos antes da eleição, afirmando que vai mesmo privatizar a CARRIS.

Mas o melhor da vida é poder esquecer isso e conversar com os amigos.

É nestas horas que percebemos a importância dos compromissos e a universalidade de casos, lutas e dramas que podem até se apresentar como individuais, mas via de regra são muito maiores do que isso.

Vejam os dois amigos a que me refiro. Um perdeu o pai há poucos dias. O outro está com filho por nascer a qualquer momento. Nada mais comum e universal, não é mesmo? A vida que vem e a vida que se vai. Isso nos levou a pensar que desde o início dos tempos, idosos e bebês são tesouros que enriquecem os grupos humanos. As mortes são ciclos que se encerram… Os nascimentos são dádivas que abrem novos ciclos, desenhando a circularidade eterna presente em todas as religiões.

E quando nos percebemos diante destes momentos definitivos, não há como deixar de pensar na desvalorização de sentido imposta ao início e ao fim das vidas, neste mundo onde tudo e todos se tornaram mercadorias de pouco valor.

Com esta visão, percebemos que em algum momento da história uma espécie de lei do mais forte, do mais influente, ou do mais bem armado, gerou grupos afinados por características deste tipo, que com completo desrespeito à fragilidade dos jovens e velhos, acabaram alterando aqueles conceitos universais, roubando seu significado.

A partir dali os mais empoderados acabaram garantindo, para os seus, não apenas a apropriação, como também a transmissão hereditária de privilégios. Desde então se vê que, com raras exceções, tanto na história como na geografia planetária, os donos da força desfrutam, com seus amigos, capangas e capachos, de tudo que é negado aos demais. Eles ainda definem que grupos serão discriminados, explorados, marginalizados e alocados a espaços de diferenciação e humilhação, que com raras exceções também apresentarão caráter hereditário.

Esta iniquidade obviamente não tem nada a ver com o mito da meritocracia. Ela surge, evolui e se perpetua ao sabor de regras tão imorais como o PL260/2020, proposto pelo “Bolsonaro de sapatenis” que governa o RS (roubei esta metáfora do deputado Jeferson Fernandes, a quem agradeço pela clareza e acuidade). Temos aqui um fato triste, Forças Armadas, constitucionais ou não, garantem injustiças e ocultam aquela verdade básica: Todos nascemos iguais, em fragilidade e potencial. E todos partiremos em breve, deixando lembranças de nossas atitudes e covardias.

Aquele amigo a que me referi no início a esta conversa, por estar vivenciando a tristeza da perda do pai, um homem velho que se sentia inútil, “um peso”, depois de toda uma vida de trabalho sério, assim como aquele outro amigo, preocupado com o futuro de seu filho, se terá escola, assistência em saúde, oportunidade de trabalho e vida digna, entendem bem o que estou tentando descrever. Conversamos a respeito disso. Eles sabem porque Michelzinho, o jovem, o filho de Temer, o breve, aos 8 anos de idade já detinha um patrimônio maior do que o amealhado em toda uma vida pelo ex-presidente Lula. 

Pois bem, com o tempo, aparentemente em alguns lugares da história e das geografias deste planeta, a luta por direitos e oportunidades iguais, pouco a pouco e com muitos sacrifícios, acabou roendo a tal lei do mais forte, segundo a qual não importando quantos morressem, um mandava e o outro obedecia, simples assim.

A ideia aqui é de que as democracias do planeta, com suas fragilidades aqui e acolá, foram arrancadas do fascismo, da ditadura, dos regimes coloniais e imperiais, por pessoas de coragem em busca de igualdade, pelo direito a uma vida e uma morte dignas, para todos os filhos e todos os pais. Os direitos humanos, os serviços públicos, o valor maior contido no respeito e na proteção aos jovens e aos idosos estão ligados a esta visão de mundo.

É claro que nem todas as civilizações precisaram evoluir do reinado, ou da ditadura, para a democracia.

É inegável o respeito aos jovens e aos idosos praticados por povos indígenas que ainda hoje são caçados à bala por garimpeiros, madeireiros, grileiros e traficantes. Talvez por isso aqueles povos, que habitam a Amazônia há quase dez mil anos, e que alcançaram um nível de civilização estável há pelo menos 4 mil anos, causem tanta raiva e medo aos fascistas. Eles, em sua integração com a natureza, resultam tão mais humanos que não servem de referência para nós, capazes que somos de em tão poucos séculos, destruir o planeta.

Ainda assim, e abstraindo aquelas formas de viver que não conseguiríamos alcançar, resta aceitar que para casos como o nosso, a democracia se coloca como estágio evolutivo posterior à barbárie, a ser preservado diante de todas as ameaças de retrocesso. Mais do que isso, é possível imaginar que a democracia, evoluindo, necessariamente levará ao socialismo.

E então, nós que acreditamos viver em uma democracia, constatando o avanço da fome, da miséria, do desemprego, da criminalidade, da morte e de todas as formas de discriminações, sob a liderança de governantes que se apressam em destruir as bases da soberania nacional, só podemos concluir que eles estão nos empurrando de volta à barbárie. E este retorno à lei do mais forte tende a ser pior do que tudo que já vivemos, pois começa com pessoas endinheiradas podendo acumular em casa até 20 armas de fogo.

Neste ponto encontramos motivos para que aqueles meus dois amigos e milhões de outros brasileiros, preocupados com a vida de seus pais e seus filhos, tratem de abrir os olhos para o que está acontecendo no país e de se empenhar na contenção do fascismo e na substituição de governantes que agem contra o povo. Trata-se, por hora, de recuperação da democracia. Quem sabe dentro de algumas décadas, imitando Portugal, consigamos fazê-la evoluir rumo ao socialismo.

A música é…

Confira a coluna em áudio.

Fonte: Brasil de Fato RS Edição: Katia Marko

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