Genocida, o que é? Qual a definição? (Por Leonardo Melgarejo)

Neste país que elegeu para a presidência aquele capitão que sorria ao dedicar sua participação em ação criminosa contra uma mulher honrada, ao monstro que a torturou, e que faz de nosso pais cordial uma espécie de bomba biológica que ameaça todo o planeta, as referências em que apoiam nossas consciências de valoração humana se perderam de todo. Resulta que hoje, nosso passado vem se tornando algo tão incerto quanto nosso futuro.

Como será relatada nas próximas décadas, a vida destes dias, onde o líder de um governo supostamente democrático entende como confortável esta situação onde avançamos em direção à maior catástrofe da história? Os registros atuais, de mortes pela covid-19, já superam os 3.000 óbitos em 24 horas. Como lembraremos, no futuro, de datas como a de 16 de março, onde a cada 50 segundos perdemos um brasileiro, por falta de orientações responsáveis, logística, infraestrutura, recursos humanos ou excesso de tolice?  

No acidente da TAM, voo JJ3054, que em 2007 tanto nos afetou, morreram 199 pessoas. Na tragédia da boate Kiss, em janeiro de 2013, morreram cerca de 245 pessoas.

Pois neste dia 16 de março, morreram 3.149 brasileiros, por conta da gripezinha. Algo como a a queda simultânea de 16 daqueles Airbus da TAM, ou 13 incêndios em boates como a Kiss. Pessoas, filhos, irmãos, amigos, parentes. Quando cada algarismo tem um nome, uma história, os números perdem o sentido.

Nesta perspectiva, as perdas são gigantescas e abrem dramas ilimitados que espalham um clima de tragédia tão denso, que a própria história se altera, e que nenhum de nós esquecerá. Portanto, como atores relevantes deste quadro, os membros do Congresso Nacional devem ter claro que, no que diz respeito ao povo, eles se enganam se pensam que não serão responsabilizados pelo apoio que oferecem a este governo, que cospe em nós, quando “debocha da pandemia”.

Os golpistas, quando derrubaram uma mulher honesta, à frente de um governo comprometido com a qualidade de vida, prometiam avanços. “Pela paz em Jerusalém, pelos maçons do Brasil, pela nação evangélica, pelos militares de 64, pelos pais, pelos filhos e pelos netos, pelos que já existem e os que ‘estão chegando’”, votaram sim, contra o Brasil. Anunciavam uma era de crescimento, o fim da corrupção, a valorização das famílias, um período de paz e prosperidade com Brasil acima de tudo e Deus acima de todos. Ou algo parecido, que não vem ao caso diante dos escândalos onde agentes de governo protegem ex-exposas, ex-funcionários, ex-amigos e os ordinais 01, 02, 03, 04.

Há, para além da covid e suas comorbidades, o medo, a fome, o desemprego e as filas de infelizes torcendo pela morte de outros infelizes, que ocupam leitos tão escassos quanto médicos, atendentes, respiradores e momentos de esperanças ilusórias. Crescem, verdadeiramente, reconheça-se, alguns serviços de essencialidade potencializada ao longo do governo Bolsonaro, do tipo oferecido por funerárias e crematórios. Uma obrigação cumprida a rigor por este governo que tem clareza a respeito de pelo menos uma verdade científica: todos vamos morrer algum dia.

Mas o pior ainda está por vir. Estão em jogo o que se desenha para o que permanecerá, e a forma como as ações deste governo se desdobram, contaminando outras áreas da psique humana.

O pior não está nas fraudes em relação ao passado, na mistificação da história, nem nas mortes do presente. O pior está no futuro que vem sendo construído ao longo destes tempos sombrios.

Vejam o tratamento oferecido pelos bolsonaristas à médica Ludhmila Hajjar, candidata a substituir o ministro general da Saúde, durante e após sua entrevista com Bolsonaro, na presença do futuro ex-ministro e do filho 03.

É vergonhoso, mas não é caso isolado

Larissa Bombardi, que se destaca por contribuições em defesa da saúde, no campo das avaliações de riscos atinentes a facilitações ao uso de agrotóxicos, que aqui crescem em escala exponencial só comparável à das mortes por covid, também vem sofrendo perseguições inaceitáveis, e de padrão similar. Neste caso, onde a pessoa ameaçada quer tão somente realizar seu trabalho acadêmico, contribuindo para o fortalecimento de direito constitucional previsto na lei de acesso a informações, os criminosos se sentem acobertados pela invisibilidade e portanto atuam com ainda maior descaramento.

Aqui a referência alcança dimensões tão amplas como ameaças à vida de uma mãe e seus filhos, envolvendo perseguição e articulações visando desmoralização profissional e desestabilização psíquica de servidora pública federal, jovem e com reconhecimento internacional positivo pouco comum entre pesquisadores de nosso pais. Cabe ainda lembrar, junto ao apoio que Larissa tem recebido de vários estudiosos, pesquisadores, organizações e entidades cientificas, o papel oposto e vergonhoso, assumido nesta tramóia por distorcedores de opinião que se prestam a colaborar com este tipo de  crime contra a ética, a moral, a ciência digna e à pessoa da pesquisadora Larissa Bombardi, que merece toda nossa solidariedade.

Situações como esta, que se repetem de forma assustadora no período recente, são parcialmente denunciadas pela Rede Irerê de Proteção à Ciência e caracterizam o conteúdo que se pretendia trazer a este texto.

O governo Bolsonaro, que sucede com agravantes capazes de envergonhar até mesmo alguns dos golpistas que viabilizaram o governo Temer, tende a macular o futuro do país, internalizando no nosso cotidiano normas de comportamento que destruirão não apenas os serviços e instituições públicas como também os valores éticos comunitários, a noção de família estendida e os princípios de solidariedade subjacentes a todas as ideias de pátria, nação e espiritualidade.

Certo de que precisamos de clareza, iluminação para entender o que está em jogo e coragem para assumir o papel que nos cabe, na defesa da história e na construção coletiva do futuro, aproveito aqui uma benção de xamã Karajá, recitada pelo monge Marcelo Barros, no programa Arte, Ciência e Ética num Brasil de Fato, do dia 11 de março de 2021, de cuja força estou seguro. Aproveitem.

Que a ternura da mãe terra, 

que o encontro das águas, 

que o sopro da ventania divina

envolva a cada um 

com seus sinais de amor divino. 

Agora e sempre. 

Amém.

Como sugestão musical, uma bela paródia do Gonzaguinha, com Edu Krieger. Sim, essa é a palavra #Genocida

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte: Brasil de Fato RS Edição: Katia Marko

Imagem: Brasil de Fato

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