Na linha de frente da covid: ‘Não é incomum sair do plantão e no caminho pra casa começar a chorar’

O Rio Grande do Sul enfrenta neste início de março o período mais trágico da pandemia de coronavírus. Diversos hospitais de Porto Alegre estão com todos os leitos de UTI ocupados e a fila de pacientes à espera de internação não para de crescer. As Unidades de Pronto Atendimento também estão superlotadas e os depoimentos dos profissionais de saúde são de adoecimento e angústia. Neste grave momento, o Sul21 publica relatos de quem atua na linha de frentesobre como está sendo trabalhar nestas condições.

“Eu estou esgotado. É o sentimento geral, estamos esgotados de tanto trabalhar”, diz Tulio Tonietto, intensivista do Hospital de Clínicas e também membro do corpo clínico do Hospital Moinhos de Vento, depois de 24h de plantão. “Trabalhei ininterruptamente só com pacientes com covid”, conta Tonietto, intensivista há 15 anos, logo após chegar em casa vindo do plantão. “A sensação é de esgotamento físico e mental por tudo o que a gente tem passado. Estamos tristes também pelo o que estamos tendo que passar agora. Não ter leito de UTI pra ofertar pra todo mundo é uma coisa muito frustrante. Sempre tivemos déficit de leitos na UTI, é uma coisa crônica, mas o que está acontecendo agora não é nada parecido com o que eu já tenha visto na medicina intensiva e meus colegas também nunca viram.”

Alta morte de pacientes

“O preparo técnico pra lidar com a gravidade desses pacientes nós temos”, destaca o intensivista. O que nunca houve foi a escala de pacientes em situação tão grave. Como exemplo, Tonietto diz que numa situação normal, uma UTI com 10 leitos teria cinco pacientes graves, três num quadro estável e dois próximos de terem alta. Agora, essa suposta UTI de 10 leitos tem todos os pacientes em estado gravíssimo.

“Esse grau de mortalidade é uma coisa que afeta nosso dia a dia, nosso emocional. A gente tem treinamento pra lidar com isso, na hora em que as coisas acontecem estamos preparados, mas depois, quando a gente sai, bate o ponto, aí a gente começa a pensar no que aconteceu…quando chega em casa e abraça a família, ali eu sinto mais. Não é incomum eu sair de um plantão de 24 horas e no meio do caminho pra casa começar a chorar”, confessa. “Ninguém foi preparado emocionalmente pra lidar com o tamanho do sofrimento que a gente tem visto agora, principalmente nos últimos 15 dias.”

Gravidade da doença

Tonietto ressalva que, na sua visão pessoal, ainda sem estudos comprovatórios, a impressão dele e de colegas é de que a doença mudou o padrão, diferente do inverno de 2020, quando os pacientes com comorbidades eram os mais atingidos. “A impressão que eu tenho é de que tenho visto mais pacientes com pouca ou nenhuma comorbidade e evoluindo mais rápido, chegando na emergência mais graves. É uma impressão subjetiva, parece que a gravidade está maior e que a evolução da doença está mais rápida.”

Medo da intubação

O intensivista conta que muitos pacientes chegam na UTI assustados, com pavor de serem intubados. “Eles sabem que a intubação é um fator prognóstico nessa doença. Eles também têm muita ansiedade porque ficam privados da visita de familiares e entes queridos, então é uma coisa muito dramática com a qual a gente não está habituado na UTI”, afirma, destacando que num dos hospitais em que já trabalhou a presença do familiar na UTI, antes da pandemia, era permitida por até 12h por dia. “Pra mim, isso é uma das coisas mais cruéis dessa doença.”

O momento da intubação, diz Tonietto, também costuma ser muito dramático. “Quando a gente comunica pra eles que os métodos não invasivos de oxigenação não estão sendo mais suficientes pra prover oxigenação pro organismo e que vão ser intubados, eles ficam bastante nervosos e ansiosos”, afirma.

Nesse momento, quando é possível, por vezes se realiza uma chamada de vídeo do paciente com os familiares. O encontro virtual costuma ser carregado de emoção. “É um momento bastante complicado, bastante emocionante.” Por outro lado, o intensivista conta que há pacientes em grau de sofrimento tão grande que dizem “ainda bem” quando sabem que serão intubados.

Ritmo frenético

Em comparação com a rotina habitual de uma UTI, a agitação tem sido muito maior ao longo da crise do coronavírus, e mais ainda nas últimas semanas.

“Com os pacientes de covid-19 que vão pra UTI, é difícil ter um turno inteiro de estabilidade. A gente está sempre correndo de um lado pro outro, atende uma intercorrência com um paciente e já corre pra atender uma intercorrência com outro paciente. Às vezes, a gente não tem tempo de tomar água. Faz um plantão de seis horas sem conseguir ir ao banheiro ou tomar água, ou um plantão de 12 horas onde a gente não almoça, toma um gole d’água e vai ao banheiro uma vez pra fazer xixi rapidinho, porque nesse período as coisas podem sair do controle.”

Sentimento ao ver as pessoas que não se cuidam

Revolta e tristeza são as palavras que Tonietto encontra para definir seu sentimento ao ver, nas ruas de Porto Alegre, o pouco caso que muitas pessoas demonstram com a gravidade da situação.

“Revolta. É uma revolta muito grande que a gente tem, porque…eu ando de máscara o tempo todo…o sentimento é de revolta e tristeza. É um menosprezo pela vida, não tenho palavras pra expressar o que sinto quando vejo esse tipo de comportamento. Estamos com os hospitais todos absolutamente lotados, não temos leito de UTI disponível pra receber nenhum tipo de patologia e isso pra nós é muito frustrante, porque as outras doenças continuam. Então, quando a gente vê uma pessoa que não se cuida e menospreza a máscara e a higiene das mãos com álcool em gel, que menospreza a vacina, é uma sensação de revolta muito grande, sensação de que as pessoas não têm apego pela vida. Fico pensando…a pessoa que hoje morreu, que assinei o atestado de óbito, o que ela diria pra essa pessoa que ela está vendo que não usa máscara?”

Fonte: Sul 21

Imagem: Sul 21

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