Piratas no comando e atraso nacional (Marcio Pochmann)

Nos anos de 1980, somente o Brasil e a Coreia do Sul tinham conseguido se industrializar no contexto do desenvolvimento do capitalismo monopolista. Nações como a Inglaterra, EUA, Alemanha, Japão, França, Rússia entre outras poucas no mundo já tinham alcançado a industrialização até o início do século 20, quando o capitalismo ainda não havia atingido a estrutura de competição dominada por grandes corporações monopolizadoras das finanças, inovação, produção e distribuição.

Desde 1990, entretanto, com a inserção passiva e subordinada na globalização do capital, o Brasil entrou na rota desindustrializante. O resultado disso passou a ser o esvaziamento de sua importância relativa na produção da riqueza mundial, uma vez que a participação brasileira no PIB global decresceu de 4,4%, em 1980, para somente 2,3% atualmente.

Teria sido a mundialização do capital conduzida pelas grandes corporações transnacionais a responsável pela decadência brasileira? Apontar a globalização como determinante da trajetória do apequenamento nacional no mundo parece insuficiente, tendo em vista que outros países conseguiram avançar em termos industriais, aumentando suas posições relativas na produção da riqueza mundial em pleno avanço da globalização monopolista.

Nas últimas quatro décadas, por exemplo, a participação da China, Índia e Indonésia no PIB mundial cresceu consideravelmente. Atualmente, a China responde a cerca de 18% do PIB mundial, a Índia por 7,6% e a Indonésia por 2,9%. Em 1980, a China respondia por 2% da riqueza mundial, a Índia 2,9% e a Indonésia 1,4%.

O que pode ajudar a explicar desempenhos tão díspares entre países que não permaneceram isolados do movimento geral do capital na globalização se encontra direta e indiretamente determinado pelas distintas opções estatais assumidas nacionalmente. A disputa fratricida entre o espontaneísmo neoliberal e o voluntarismo político no Brasil terminou por comprometer tanto a capacidade de coordenação estratégica estatal quanto o acompanhamento do sentido mais geral do movimento do grande capital global desde 1990.

De um lado, porque o espontaneísmo neoliberal atrelou o desmonte do Estado à ilusão do protagonismo privatista do capitalismo. Quanto mais avançou o recuo estatal, mais o setor privado se apequenou no Brasil, conforme demonstraram as experiências da “Era dos Fernandos” (Collor, 1990-1992 e Cardoso, 1995-2002) e desde o golpe de 2016.

De outro lado, o voluntarismo político impregnado pelo lema lançado inicialmente no governo Sarney (1985-1990) de “tudo pelo social” criou as condições gestoras da crescente massa populacional sobrante à margem do sistema produtivo. Isso porque numa economia com renda per capita estagnada e de avançada desindustrialização precoce como a brasileira, o protagonismo estatal na coordenação estratégica não terminou se reconstituindo suficiente e adequadamente.

No período houve uma completa inversão do que o Brasil havia realizado com excelência entre as décadas de 1930 e 1980. Na época, sob a coordenação estratégica estatal, o país conseguiu aliar o potencial expansionista da grande empresa monopolista estrangeira aos decisivos investimentos públicos e do setor privado nacional.

Três momentos demarcaram a capacidade estatal de coordenação estratégica nacional. O primeiro durante a década de 1940, com a instalação da indústria de base. O caso da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) exemplifica o acordo político realizado em função da segunda Guerra Mundial entre os presidentes do Brasil (Getúlio Vargas, 1930-1945) e dos Estados Unidos (Franklin Roosevelt, 1933-1945) para tornar possível a transferência tecnológica e o apoio financeiro do capitalismo avançado para a internalização da base industrial no país.

O segundo momento ocorreu nos anos 1950, com a experiência negociadora do governo JK (1956-1961), efetivada diretamente com a direção das matrizes das grandes empresas multinacionais, inicialmente europeias e, posteriormente, estadunidenses. Mediante o Plano de Metas, foi traçado o horizonte de expansão das condições infraestruturais que permitissem aportar os investimentos privados estrangeiros acompanhados da transferência tecnológica ao Brasil.

O terceiro momento experimentado nos anos 1970 também transcorreu conduzido pelo planejamento governamental. Pelo segundo Plano Nacional de Desenvolvimento do governo Geisel (1974-1979), a coordenação estratégica estatal nacional alcançou os governos da Alemanha e Japão e possibilitou, por exemplo, a transferência tecnológica em áreas como energia, eletrônica e outras, apoiadas em abundantes empréstimos bancários dos Estados Unidos.

O sucesso atual de países como China, Índia e Indonésia se encontra diretamente associado à criação das condições nacionais específicas e apropriadas para o exercício da coordenação estratégica estatal que permite o engate do local ao movimento geral do grande capital. A estrutura monopolista da concorrência das grandes corporações transnacionais limita, porém não impede que a essência dos interesses do capitalismo possa estar conectada aos interesses nacionais, dependendo, é claro, da capacidade estatal de coordenação.

E é justamente disso que o Brasil se distanciou. Ao se tornar uma espécie de transatlântico paralisado e descolado do sentido geral das correntes marítimas do grande capital, recepciona no seu comando todo tipo de piratas a dilapidar o seu patrimônio e a degradar profundamente os interesses nacionais.

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br) *Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados
sobre economia social, trabalho e emprego.

Uma resposta

  1. Bom dia prezados (as),
    Só não se esqueçam da diferença de sociedade entre os países citados e o Brasil..
    Att,

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