Triunfo do catastrofismo (Por Marcio Pochmann*)

O Brasil ingressa na terceira década do século 21 ainda fortemente contaminado pela interpretação dominadora do “triunfo do catastrofismo”. Este enfoque, iniciado na década de 1980, é marcado pela crítica contundente à condução econômica do Brasil implementada já no período democrático. Seus formuladores mais conhecidos são ex-ministros da ditadura civil militar, Reis Velloso em O último trem para Paris e Roberto Campos em A constituição contra o Brasil. Este enfoque tornou-se hegemônico tanto na Era dos Fernandos (Collor, 1990-1992 e Cardoso, 1995-2002) como na fase do golpismo (Temer, 2016-2018 e Bolsonaro, 2019-2021).

A tese básica deste pensamento usado para propaganda ideológica da direita é que as reformas promovidas pela Constituição de 1988 levaram à interrupção das taxas de crescimento econômico vigentes durante as décadas de 1970. Na defesa do neoliberalismo, o catastrofismo passou a triunfar na linguagem de porta-vozes do dinheiro e da mídia comercial cada vez mais dependente do rentismo e especializada na linguagem aterrorizante enquanto mantra da via “modernizadora” que permitisse a maior apropriação do Estado por ricos e poderosos.

Essa visão pode ser classificada como sendo a terceira interpretação dominante a respeito da história da nação nos seus últimos 200 anos. Nos primeiros 100 anos da Independência nacional, entre as décadas de 1820 e 1920, por exemplo, predominou na leitura das elites, em geral, o ufanismo contido, que podemos apresentar como sendo a primeira interpretação histórica. Resumidamente, esta concepção do atraso nacional em relação aos países do velho mundo europeu era abrandada pela perspectiva da precocidade de uma sociedade agrária orientada para o futuro. A obsessão política das elites letradas era a de que o país estaria condenado a dar certo, pois compensado pela pujança da natureza e negação do trabalho a seguir sendo realizado pelas etnias inferiores (Antônio Cândido em Literatura e desenvolvimento e Stefan Zweig em Brasil, País do Futuro).

Uma longa transição negociada entre as elites escravistas, iniciada desde a chegada da família Real em 1808 e concluída somente oito décadas depois, gerou expectativas otimistas para a transição à nova sociedade urbana e industrial. Entretanto, ela foi obstaculizada, recorrentemente, pela política dos governadores (1898-1930), pois o poder federal estava subordinado aos interesses das oligarquias estaduais comandadas pelos latifundiários da monocultura primário-exportadora. Este processo histórico resultou no que é conhecido como capitalismo tardio.

Entre as décadas de 1930 e 1980, predominou uma segunda interpretação do Brasil, superando a vocação agrarista do país. Por quase seis décadas, a utopia da modernização capitalista ocupou a centralidade nas agendas governamentais.

Nesta corrente de pensamento, o atraso estrutural decorria da condição periférica na qual o Brasil se encontrava, cuja expressão maior era o subdesenvolvimento representado pela miséria e fome das massas (Celso Furtado em A pré-revolução brasileira e Caio Prado Júnior em A Revolução Brasileira). A superação da posição retardatária seria fruto de três dimensões constitutivas da nova sociedade urbana e industrial.

A primeira delas era a necessidade do reposicionamento na Divisão Internacional do Trabalho que permitisse a passagem de economia primária exportadora para a dominada pela produção e exportação de manufatura. No mesmo sentido, a valorização e generalização do trabalho assalariado que formaliza o ingresso à cidadania reguladora de acessos aos diretos sociais e laborais, à representação classista e à justiça trabalhista.

Por fim e não menos importante, a defesa do mercado interno, associada à difusão do consumo material e cultural para as grandes massas constitutivas da nova sociedade urbana e industrial. Ao invés da estagnação hierárquica prevalente no antigo e longevo agrarismo, a modernização capitalista foi protagonista de significativa mobilidade social ascendente, acompanhada de marcante desigualdade da renda, riqueza e poder.

Tudo isso, contudo, foi perdendo importância absoluta e relativa com a transição antecipada para a sociedade de serviços em curso concomitante com a desindustrialização precoce iniciada e conduzida pela forma com que o Brasil se inseriu passiva e subordinadamente na globalização desde 1990. O receituário neoliberal intrínseco à interpretação dominante do triunfo do catastrofismo segue inconteste por parcela das elites que majoritariamente desistiram do projeto de nação democrática, soberana, próspera e inclusiva.

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)

*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

Deixe uma resposta