Brasil volta a ter 14 milhões de famílias na miséria, e economistas afirmam: a situação vai piorar

É o que afirmam, em entrevista à Sputnik Brasil, os economistas Daniel Duque, pesquisador de economia aplicada da Fundação Getulio Vargas e do Instituto Brasileiro de Economia, e Walter Belik, especialista em segurança alimentar e professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Atualmente temos um contingente enorme que vai deixar de receber o auxílio emergencial. Os níveis de pobreza chegaram a números extremos no último ano, e o governo teve que acudir estas pessoas. […] Para 2021 não ha condições de prosseguir [o auxílio emergencial], e a situação deve se agravar bastante”, avalia Belik.

Os números a que Belik se referem são dados do Ministério da Cidadania, que mostram que 39,9 milhões de pessoas no Brasil vivem em condição de miséria: ou seja, têm renda de até R$ 89 por pessoa, por mês. Uma pesquisa do Datafolha publicada no dia 21 de dezembro apontou que 36% das famílias beneficiadas pelo auxílio emergencial tinham no benefício sua única fonte de renda.

“A pandemia impactou principalmente trabalhadores de menor qualificação e famílias mais carentes. Há um percentual que ainda não se recuperou em termos de emprego. Para este mês de janeiro podemos esperar que haja mais pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza extrema”, diz Duque.

Além das famílias na miséria, havia 2,8 milhões de famílias brasileiras em situação de pobreza em outubro, com renda per capita média de R$ 90 e R$ 178 por mês.

Belik lembra que o momento delicado por que passa a economia brasileira, com fuga de capitais e fechamento de fábricas, como a da Ford, dificultam ainda mais a situação das pessoas mais carentes.

“Naturalmente teremos a continuidade desta situação de miséria e necessidade de apoio do governo”, afirma Belik. 

Ambos os economistas afirmam que a crise provocada pela pandemia foi determinante para o aumento da pobreza no Brasil. No entanto, para Duque, era possível ter minimizado os efeitos da crise nas famílias mais carentes. A solução teria sido aprovar uma “uma mudança permanente na política social do Brasil em 2020, e encaminhado para o orçamento deste ano”. Para não comprometer ainda mais a dívida pública, no entanto, o governo federal preferiu não fazê-lo.

“O governo deveria ter se antecipado a esta situação. […] Seria preciso o governo ter pensado em uma política social com mais recursos, talvez até de forma permanente, com realocação de outras áreas, mas infelizmente isto não foi feito”, avalia Duque.

Outra solução apontada por Duque seria prorrogar o auxílio emergencial, talvez “com um valor menor e uma população um pouco mais restrita”. Já Belik destaca que há outras políticas públicas que podem, direta ou indiretamente, beneficiar na renda das famílias mais carentes.

“A própria vacinação pode ser uma saída para melhorar a situação de empregabilidade. Outros programas, até mais baratos, como restaurantes populares e cozinhas comunitárias e mesmo a dinamização dos bancos de alimentos, podem ajudar bastante no combate à fome”, diz Belik.

O economista da Unicamp não acredita na extensão do auxílio emergencial. Segundo ele, por não se tratar de um ano eleitoral, não há apelo de popularidade que faça o governo priorizar políticas sociais em detrimento das contas públicas. Para diminuir o déficit nominal, o economista explica que o governo deverá enxugar em torno de R$ 500 bilhões – segundo ele, este corte acontecerá “basicamente em gasto social”. 

“Dificilmente deve acontecer [a prorrogação do auxílio]. […] As pressões do orçamento são extremamente elevadas. […] A política do governo ainda é uma política conservadora, de não investimento e não intervenção no mercado para melhorar essa situação de geração de emprego e geração de renda destas famílias”, diz Belik.

Já Duque acredita que, por conta da pressão sofrida pela extensão do benefício, “em algum momento o governo vai acabar tendo que ceder e aprovar esta prorrogação” do auxílio emergencial.

Segundo uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicada no novembro, 13% da população do Brasil (cerca de 20,7 milhões de pessoas) deixou de comer porque “não havia dinheiro para comprar mais comida” durante a pandemia de COVID-19. Durante o governo Bolsonaro, o número de famílias cadastradas em extrema pobreza saltou em 1,3 milhão (eram 12,7 milhões em dezembro de 2018, último mês do governo de Michel Temer).

Fonte: Sputnik News

Imagem: Sputnik News

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