Intolerância Religiosa – Espiritismo (1) ( Por Regina Abranhão)

21 de janeiro é o Dia Nacional Contra a Intolerância Religiosa. Esta data marca o dia da morte de Mãe Gilda de Oxum, em seu terreiro no bairro Lagoa do Abaeté, em Salvador, no ano de 2001. Gilda já havia presenciado a invasão e depredação de seu terreiro, a agressão brutal de seu marido, a interrupção de celebrações religiosas. Mas o ato que lhe causou um enfarto foi a distribuição de um jornal com a manchete: “Macumbeiros charlatões lesam vida e bolso de clientes”, com a foto de sua casa e a dela estampando a matéria.

As invasões, agressões e o jornal faziam parte da cruzada de “fiéis” da Igreja Universal do mesmo bairro, sob a alegação de “eliminar o demônio” da região.  Para eles, o culto era demoníaco, e justificava todos os ilícitos cometidos contra uma tradicional casa de matriz africana, com mais de 30 anos de funcionamento. 

A perseguição aos praticantes das religiões originárias de matriz africanas tem ligação direta com o racismo e com os resquícios da escravização, se agrava com o crescimento da visão purista das correntes seguidoras do velho testamento, e serão objeto de outro texto. Porque outras crenças e religiões sofrem também este problema. Com o crescimento de igrejas da Teologia da prosperidade a demonização de crenças que se utilizam do intercâmbio entre espíritos e homens aumenta e é tida como perigo ao mundo cristão. O espiritismo utiliza esta intermediação. Neste texto avaliamos que, se não é de hoje a intolerância com esta doutrina, atualmente são adicionados motivos sociais e políticos para alimentar esta perseguição.

Surgido na França sob influência direta do cientificismo, do evolucionismo e do cristianismo original, e teve em Denizard Leon Rivail, que usou o codinome Alan Kardec, seu nome mais conhecido. Efetivamente, a codificação dos principais dogmas nas chamadas Obras Básicas deu-se por Kardec. Desde o início enfrentou forte oposição da igreja cristã, que chegou a professar um auto de fé (procedimento adotado pela inquisição durante a idade média). O Auto de Barcelona, em 9 de outubro de 1861 teve padre portando cruz e tochas, multidão assistindo e a queima de 300 exemplares de vários livros, revistas e publicações espíritas. O Brasil é hoje o país com maior número de praticantes do espiritismo, sendo alguns de seus nomes mais conhecidos, como Divaldo Franco, posicionados ostensivamente a uma política de direita, inclusive com apoio declarado a Bolsonaro. Mas nem todos os espiritas concordam com isto!

Segundo Paula Lau e Sílvia Schiedeck, representantes do Coletivo Espíritas à Esquerda, os motivos de perseguição hoje ocorrem a partir de uma ressignificação da doutrina:

“O Espiritismo brasileiro tem, ao mesmo tempo, indícios do catolicismo (onde perde-se um tanto do teor científico e filosófico trazido por Kardec, tornando-se conservador) e das culturas de matrizes indígenas e africanas (que adotam a mediunidade e creem na reencarnação). O respeito a todas as religiões foi um dos legados de Kardec. Os/as Espíritas já foram vistos/as como pessoas alucinadas, loucas, obsediadas pelo demônio por quem nada entendia ou entende sobre. Hoje, observamos um crescente ato de ressignificação do Movimento Espírita Brasileiro, que já vem se ensaiando há algum tempo, com aprofundamento filosófico, científico e cultural, considerando a diversidade do nosso país e a necessidade de se aproximar das pessoas, não necessariamente como uma religião. E é a partir deste posicionamento (o Espiritismo é progressista/evolucionista em sua essência), que percebemos e sentimos uma nova onda de preconceito, inclusive entre Espíritas conservadores, advinda de uma extrema direita que se serve, explora e manipula, principalmente, evangélicos fundamentalistas, através de milicianos da fé.”

Desta forma, ao se posicionar contra a miséria, a exploração de uma imensa massa de brasileiros à margem dos requisitos mínimos de vida digna e na busca de valores originais do cristianismo, este grupamento entra na mira dos setores de extrema-direita e do cristofascismo. Isto porque, segundo eles, ao optar pela defesa da justiça social e da dignidade do ser humano, enfrentam abertamente o capital e seus acumuladores. Em síntese, enfrentam o obscurantismo da mesma forma que Cristo enfrentou Roma: Pregando o amor, a caridade e o combate aos mercenários da fé.

Fonte: Regina Abranhão

Imagem: internet

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