APLAUDIR OS ANTIFASCISTAS, MAS LUTAR CONTRA O NEOLIBERALISMO APLAUDIR OS ANTIFASCISTAS, MAS LUTAR CONTRA O NEOLIBERALISMO( Por Igor Pereira)

As torcidas antifascistas, os entregadores antifascistas, todos os antifascistas merecem nossos aplausos. Mas o projeto que está em curso no país tem muito mais a ver com o neoliberalismo do que com o fascismo.

Tive um diálogo na internet que acredito ter relevância para entendermos o momento conturbado que vivemos. Uma amiga de rede social postou uma frase do jornalista Alexandre Garcia, na qual ele argumentava contra a obrigatoriedade da vacina de prevenção ao Corona. Segundo o jornalista, uma vacina eficaz não precisa ser obrigatória, pois todos quereriam tomar por conta própria. 

Nos comentários dessa postagem, muitas pessoas se posicionaram contra o jornalista, algumas a favor. Mas me chamou mesmo atenção uma mulher, que não vou aqui identificar. Sobre a vacina, ela disse que não tomava, nem que a amarrassem, nem de graça, nem forçada, em hipótese alguma. Intrigado com tamanha resistência, me despi das emoções e a perguntei educadamente se o motivo da resistência era medo da vacina. 

Ela respondeu que não era medo, mas sim desejo de não ser controlada por nenhum órgão de saúde ou governamental. Disse que não confiava na vacina. Ela alega que o vírus teria 99% de chance de cura (não citou a fonte). Ela disse que se alimenta bem, não come alimentos trangênicos, respira ar puro e mora num lugar limpo.

Ela acrescentou ainda que acreditava que o vírus tinha sido criado em laboratório na China, e que havia algum tipo de plano obscuro por trás dele. Que sempre usava máscara e não tinha interação com idosos. Agradeceu minha interação educada e também a agradeci por ter respondido. 

Enfim, evidente que minha interação não é uma amostra confiável, é uma pessoa, que não reflete necessariamente todas ou nem a maioria de pessoas que é contra a vacina. Mas me chama atenção algumas motivações que ela levanta. A primeira delas é uma desconfiança de órgãos governamentais. Há uma desconfiança mesmo do que nós chamamos de Estado, que se traduz pelo governo, pelo SUS, pela política. Essa desconfiança no governo, associada a uma excessiva confiança no indivíduo, pode ser identificado como uma espécie de anarquismo liberal. Indivíduos que desconfiam que o Estado possa entregar qualquer serviço adequadamente, preferem individualmente achar soluções para seus problemas. O anseio pelo porte de armas, por exemplo, vem desse pensamento. Se a segurança não está funcionando, eu mesmo como indivíduo quero garantir minha segurança tendo uma arma. 

Essa resposta é possível no Brasil do governo Bolsonaro e se explica muito mais pela influência do neoliberalismo do que pelo fascismo. Foi o neoliberalismo que venceu após o golpe de 2016. A renovação de quadros para ocupar a política é financiada por iniciativas neoliberais como o Curso de Formação Política Renova Br. Esse projeto de formação política, só nas eleições de 2020, se orgulha de ter eleito 151 pessoas como prefeitos e vereadores em 123 cidades de vinte estados brasileiros. São 12 prefeitos e 2 vice-prefeitos, além de 137 vereadores eleitos em vinte e cinco partidos diferentes. Tábata Amaral do PDT e o governador gaúcho Eduardo Leite do PSDB são lideranças ligadas a esse movimento. Jovens, promissores. Luciano Hulk é um presidenciável que flerta com o Renova BR. Ali em 2022 eles tem chances reais de governar diretamente, sem precisar de um intermediário como o bossal que hoje está na presidência. 

A atual crise brasileira é a confluência de três reações, segundo o economista Pedro Paulo Zahluth Bastos. A primeira é o esforço estadunidense, que iniciou já no governo Obama e depois se intensificou sob o governo Trump, de reafirmar sua hegemonia sobre o Cone Sul. Ficam cada vez mais nítidas a ação do FBI na operação Lava Jato, decisiva para o resultado eleitoral de 2018. 

A segunda razão é a unificação da burguesia diante de uma agenda neoliberal de aniquilação dos direitos sociais e trabalhistas, privatização do patrimônio e serviços públicos, redução da carga tributária. A marca dessa unidade são os patos que desfilaram na paulista, um símbolo da pergunta da burguesia sobre quem pagaria o pato dos impostos. 

E a última reação vem da classe média que se viu ameaçada da perda de seus privilégios. Entre os anos de 2012 e 2014, a alta e a média classe média perdeu poder aquisitivo. A imprensa disse para ela que a culpa era do PT e da corrupção, isso a enfureceu e fez despertar seus mais espúrios racismos e misoginias. Na manifestação contra Dilma de 12 de abril de 2015, pesquisa coordenada por Mariana Cortês e P. Trópia, pediu que os manifestantes escolhessem três entre quinze iniciativas dos governos do PT que mais os afetaram negativamente. Os três mais indicados foram: Bolsa Família (44,5%), auxílio reclusão a famílias e detentos (43,7%) e os programas de cotas raciais nas universidades públicas (35,6%). Ou seja, o PT foi identificado pela classe média como o grande causador de seus males e ela embarcou nas ideias neoliberais.  Está abraçada ao neoliberalismo desde então, mesmo que sua situação tenha piorado nos governos Temer e Bolsonaro, pois não é o PT que a vitimou, e sim o próprio neoliberalismo que ela abraçou, e a austeridade fiscal a ela associada. 

Pois muito bem, o que nós da esquerda estamos fazendo desde então? Estamos combatendo o neoliberalismo enquanto projeto de sociedade? Não, estamos criando um inimigo imaginário que nós chamamos de fascismo. Ora, o fascismo não é o único capaz de ativar o racismo, a homofobia e a misoginia. O neoliberalismo faz isso muito bem, sobretudo numa sociedade em que cor da pele e gênero estão intimamente relacionados com a desigualdade social. O projeto fascista de Mussolini era contra o neoliberalismo. A política econômica do governo é gerida pelo neoliberal Paulo Guedes. O fascismo de Mussolini era nacionalista, o governo Bolsonaro privatiza estatais e bate continência para os Estados Unidos. 

O antifascimo é uma corrente que mobiliza as pessoas e produz lutas sociais importantes. As torcidas antifascistas, os entregadores antifascistas, todos os antifascistas merecem nossos aplausos. Mas o projeto que está em curso no país tem muito mais a ver com o neoliberalismo do que com o fascismo. O que está sendo destruído é a ideia de Estado de bem estar social. O que está em curso é o salve-se quem puder, o desvalor da vida das pessoas, a sobrevivência do mais forte, e os fracos que se danem. Isso não é fascismo. É muito pior. Urge unir o maior número de forças para enfrentar essa ofensiva. Mas para combater o inimigo, é necessário que primeiro o identifiquemos corretamente.

Fonte: Igor Corrêa Pereira é técnico em assuntos educacionais e mestrando em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro da direção estadual da CTB do Rio Grande do Sul.

Imagem: Arquivo

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