O tempo não para (Por Leonardo Melgarejo)

Fim de ano triste. Desemprego crescente, quase 200 mil mortos pela covid. Ausência de leitos, vacinas, seringas, agulhas e empregos. Fim do auxílio emergencial para milhões que afundam no mapa da fome. Articulações golpistas que garantem um presidente da Câmara Federal bolsonarista, enquanto o vampiro sai do esquife e o marreco enrica nos USA.

Muitas retrospectivas ruins. Nosso país na linha de frente dos escândalos, desmandos e tragédias internacionais. É o fundo do poço, a nata do mau exemplo e o cheiro de enxofre, tudo de uma vez só.

Tão ruim, que é melhor nem lembrar.

Mas, como cantou Lenine, “A vida não para, mesmo quando o mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isso tudo é normal”.

E assim, olhando em volta, dá para pensar em motivos para apostar em 2021.

Temos aí a decisão do ministro Lewandowski, garantindo que os advogados de Lula terão acesso às conversas entre o juiz parcial, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, o procurador da República Deltan Dallagnol e integrantes da força-tarefa da Operação Lava-Jato. Com isso, e confiando na Justiça, podemos esperar anulação por parcialidade das decisões e encaminhamentos organizados por aquele juiz mafioso. Anulação das condenações de Lula, no triplexinho e no sítio do pedalinho. Anulação do roubo dos direitos civis de Lula, abrindo possibilidades de reconstrução da democracia, com respeito à Constituição Federal.

Uma porta para o Brasil avançar, como os vizinhos, com esperança, com vacinas e com o povo alegre nas ruas.

Aliás, sob o ponto de vista dos direitos humanos, é da Argentina, que nos vêm as melhores notícias do mês. Naquele país, que até o ano passado afundava no mesmo pântano desenhado para o Brasil de Paulo Guedes, a cidadania festeja um 2021 luminoso. Lá, a vacinação já começou, e envolvendo 100 mil profissionais da área de saúde, alcançará a todos e todas, em todo o país. Os argentinos, recomposta a administração popular, renegociaram a dívida externa e retomaram o caminho da justiça social. Para detalhes ver comentário do jornalista Rogério Tomaz

Muito resumidamente, adianto que, entre outras decisões, a Câmara Federal daquele país repôs reajustes salariais surrupiados aos aposentados, por desmandos na Previdência ocorridos durante o governo neoliberal de Macri. Os argentinos ainda estabeleceram imposto sobre grandes fortunas e autorizaram o cultivo individual de maconha para fins medicinais.

Mas, e mais importante, o Senado Federal aprovou ajuda médica, psicológica, social e econômica, por três anos, para mulheres que decidam manter uma gestação inesperada, como estímulo para superação de infortúnios que possam induzir ao aborto. Adicionalmente, foi garantido a todas as mulheres que se sentirem instadas a abortar, o direito de fazê-lo com assistência psicossocial, médica e hospitalar. Nestas condições, inclusive uma senadora da Opus Dei, que havia votado contra a legalização do aborto, em 2018, agora ajudou na aprovação de tamanho avanço civilizatório.

É de invejar. Enquanto isso, no RS do governador invisível e na Porto Alegre do prefeito que faz arminha, aqui onde o sistema de saúde era tão forte que a pandemia demorou a avançar, ninguém fala em vacina. Mas o fim de ano anuncia tragédias, com hospitais lotados e filas de espera por UTIs.

Em situação de alerta e sem acesso a alternativas, na Capital já se fala em grande risco do sistema de saúde colapsar em janeiro.

Morrerão principalmente os mais pobres. Aqueles que compõem a maioria iludida que ajudou na eleição de Leite, Mello e Bolsonaro. Alguns sequer acreditam na necessidade de vacinas como aquelas chinesas, que lá já foram aplicadas a 1 milhão de pessoas. Aqui não poderia ser mais urgente o apelo dos fatos: o número recorde de mortes por covid-19 no Rio Grande do Sul nas últimas 24 horas indica que muitos dos nossos não viverão para enfrentar o inverno, sempre tão perigoso para os gaúchos idosos e os pobres de todas as idades.

Mas o tempo não para

Ciente disso, nesta mesma semana, o Papa Francisco reafirmou a importânciadas atitudes e exemplos de Dom Helder Câmara. Ele falou: “Recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: ‘Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: ‘Por que tanta pobreza?’, chamam-me comunista’”.

Dom Helder não nos deixa esquecer quão desumano é aquele que prefere fechar os olhos e os ouvidos para o que ocorre em nossa volta. Ele nos lembra que, conservando a calma, podemos não apenas seguir o exemplo argentino, como também mudar este mundo onde “até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para”.

OBS: Amigues leitores. Os links são opções de acesso, para eventuais interessados nas fontes citadas. Recomendo, enfaticamente, tão somente que não deixem de escutar a música. Que ela nos inspire.

Fonte: Leonardo Melgarejo – Edição: Katia Marko

Imagem: Brasil de Fato RS

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