O SINDICATO E O “EPISÓDIO DAVID COIMBRA” @ Nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RGS


@ Nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RGS sobre o “escândalo” em cascata provocado pelos comentários de David Coimbra na Rádio Gaúcha a respeito do assalto ao Banco do Brasil em Criciuma. “Escândalo” que mobilizou até o Ministério Público do RS, em processo contra o jornalista e a emissora, propondo à Justiça uma penalidade de 200 mil reais. A nota:

Liberdade de opinião, apologias e censura econômica

Em 2016, Alexandre Fetter, da Rádio Atlântida, sugeriu que os ouvintes cuspissem no ex-presidente Lula. Agressão a um idoso. O apresentador do programa Pretinho Básico incentivou, na mesma época, que jornalistas defensores dos Direitos Humanos, que criticavam excessos da Brigada Militar, filhos e parentes de políticos e governantes fossem as próximas vítimas da violência no Rio Grande do Sul.

Ele disse: “que sejam eles a sangrar e a deixar suas famílias enterradas”, ao vivo, no programa. Naquele mesmo ano, o apresentador Faustão, da Rede Globo, afirmou, ao vivo, no seu Domingão, “que tem mulher que gosta de homem que dá porrada”. Justificativa à violência sexista. Em 2018, Peninha, no Sala de Redação, mandou Eduarda Sperb voltar para a cozinha, “que é o lugar de onde tu nunca deveria ter saído”. Discriminação de gênero.

Em 2020, o jornalista Cacau Menezes, do Balanço Geral de SC, disse que “meninas inventam histórias, (sobre abuso sexual) publicam nas redes sociais e se divertem com isso. A imagem e o contexto do menino atingido vai para o beleléu”. Culpabilização da vítima. Também este ano, o apresentador da Band RS, Milton Cardoso, interrompeu uma entrevistada para afirmar que “dois homens ou duas mulheres não teriam condições de criar uma criança”. Homofobia.

Resgatamos essas falas pretéritas, no contexto do acalorado debate sobre os comentários dos jornalistas David Coimbra e Kelly Mattos, no Programa Timeline, da Rádio Gaúcha, sobre o assalto a banco ocorrido em Santa Catarina. Os dois e o Grupo RBS já pediram desculpas pelos comentários. Falas infelizes? Brincadeira de mau gosto? Apologia ao crime? Liberdade de opinião e expressão? Talvez esteja mais do que na hora de refletirmos, com responsabilidade e sem grenalização, sobre as fronteiras que demarcam uma e outra coisa.

A liberdade de expressão e de opinião é um direito basilar da profissão de jornalista e da democracia. Direito este que, em tempos de negacionismo e gabinetes de ódio, vem sendo cada vez mais ameaçado. Somente durante o período de cobertura à pandemia, foram registrados 82 ataques a jornalistas no Brasil. Tais liberdades encontram seus limites no Código de Ética Profissional e nos respectivos Códigos de Ética dos grupos jornalísticos. Nos casos de violação à ética profissional, qualquer cidadão pode representar junto ao Conselho de Ética do Sindicato.

Comentários infelizes e brincadeiras de mau gosto devem ser tratados como o que são: reveladores de preconceitos e pensamentos individuais que, no geral, são mascarados. Críticas contundentes, discussões de teses ou filosóficas, opiniões são questões que se reservam ao debate democrático de ideias, ao diálogo, garantidos os espaços para o contraditório. Isso, por óbvio, não inclui crimes de difamação, calúnia ou injúria, que têm tratamento específico previsto em lei.

Neste contexto, espanta-nos a hipocrisia dos que se arvoraram em classificar os comentários dos dois jornalistas em “apologia ao crime”. O que incomodou os patrocinadores, particularmente neste episódio, que não incomodou nenhum anunciante nos vários casos citados no início deste texto? Arriscamo-nos a dizer que a diferença foi a possibilidade de não se condenar, com veemência, um eventual crime contra o capital, representado pelos bancos e pelo sistema financeiro.

Ao que parece, enquanto os alvos são as mulheres, os negros, os LGBTQI+, os pobres, os ativistas de diferentes causas, os anunciantes não se sentem incomodados de patrocinar programas onde apresentadores promovem, por meio de suas falas preconceituosas, crimes de racismo, de homofobia e de violência sexista. Então não nos iludamos: a indignação empresarial não é em respeito à vida e à segurança das vítimas, envolvidas nas cenas de horror do referido assalto. A indignação é em defesa do patrimônio. Eis o porquê da censura econômica que promovem contra o programa: nada revolta mais o Capital do que ideias que possam ameaçar o seu lema de “lucro acima da vida”.

Fonte: Nota do Sindjors / Diretoria Executiva Sindjors

Imagem: Sindjors

2 Respostas

  1. Eu em toda minha vida nunca vi um sindicato não defender os seus pois está é sua origem.
    Como sindicato, vocês estão de parabéns, más acredito que reconhecer os erros dos seus, reavaliar seus princípios e o principal ser humilde em saber que aprendemos nos erros.
    Tenho certeza absoluta que todos os envolvidos neste caso, serão melhores pessoas e profissionais no futuro.

  2. Heron S.S.

    O crime não pode existir e ser aplaudido, em especial por quem tem domínio dos meios de comunicação, de nenhuma forma ou espécie, seja ele “o crime” contra negros, contra mulheres, contra homens, contra LGBT+, contra héteros, contra crianças, contra adultos, contra brancos, contra amarelos, contra azuis, contra políticos, contra instituições financeiras, contra membros das forças de segurança pública, contra pessoas privadas de liberdade por cometerem crime detidas em instituição prisional, contra IDOSOS, contra religiões e religiosos, contra ateus contra ninguém. Crime é simplesmente crime e deve ser repudiado e não defendido seja pela TV, seja pelo rádio, seja por seu SINDICATO. A apologia ao crime não deve ser usado como instrumento para atingir adversário político caracterizando o criminoso como “minoria” pois no Brasil basta pesquisar a ocupação de presídios que chegarão a conclusão que criminoso no Brasil não é minoria que precisa ser defendida, são maioria que deve ser combatida.

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