Os eleitores (Por Marcio Pochmann)

A marcha da transição antecipada para a sociedade de serviços tem sido acompanhada por uma série de transformações no Brasil. De um lado, o declínio industrial enfraquece as ocupações da classe média assalariada, no mesmo sentido que desfalca profunda e rapidamente a classe trabalhadora da manufatura.

De outro, o inchamento do setor terciário da economia fez proliferar a pauperização do trabalho em ocupações precárias e subutilizadas, cujos rendimentos, além de baixos, não têm proteção social e trabalhista, e sequer a necessária representação laboral. Em função disso, há uma massa crescente de pessoas excedentes às necessidades da acumulação capitalista, que se tornam dependentes de fundos públicos e ficam vulneráveis à cooptação do crime organizado e do fanatismo religioso.

Guardada a devida proporção, lembra um Brasil da época da República Velha (1889-1930), quando o capitalismo nascente convivia com hordas de populações sobrantes. Atualmente, as formas de cangaço moderno expresso pela espetacularização dos assaltos em várias cidades (Araraquara-SP, Criciúma-SC e Cametá-PA) se fortalecem, bem como experiências de fanatismo religioso que parecem consagrar as “novas canudos em formação”.

Estas alterações estruturais se refletiram no comportamento dos 148 milhões de eleitores (70% da população brasileira) aptos a votar em 2020. Considerando o recente resultado eleitoral, constata-se a existência de pelo menos, três grandes e distintos agrupamentos sociais que resultaram da transição para a sociedade de serviços.

O primeiro segmento é formado por eleitores sujeitos a interagirem com a prática política tradicional, eles lidam com ela apenas como uma espécie de moeda de troca. Em alguma medida, são os resquícios do antigo coronelismo do Brasil agrário que segue se renovando. É usual o voto de cabresto associado à segregação espacial no interior das cidades sob o domínio de milícias, do crime organizado ou pelos circuitos marcados pelo fanatismo religioso.

Esse grupo corresponde a cerca de 45% dos eleitores e aceita a política partidária tal como ela vem se apresentando atualmente. Embora majoritário, desde a virada para o século 21, percebe-se sua gradual perda de densidade no interior do conjunto de eleitores.

O segundo grande segmento social é composto pelos eleitores crescentemente desejosos de uma nova prática político-eleitoral. Em geral, os anseios desta parcela da sociedade brasileira convergem a uma perspectiva antissistêmica em relação ao exercício partidário e sobre o papel que as eleições deveriam ter para os rumos do país.

Esse quase um terço dos eleitores é comprometido com a mudança na política e tendem a discordar da forma com que a democracia representativa funciona no país. Rejeitam as candidaturas demagógicas coladas nas proposições irrealizáveis, são críticos a pasteurização das campanhas mercadológicas-eleitorais e conexões inversas à composição da sociedade diante do gênero, raça, faixa etária, ocupação entre outros. Esperam a renovação, que não chega a consolidar-se.

Por fim, o terceiro agrupamento de eleitores é formado por aqueles que não acreditam no sistema eleitoral, são até mesmo negacionistas da política. A desilusão deste segmento com as instituições governamentais e representações políticas ameaçam crescentemente o próprio regime democrático.

Com aproximadamente um quarto dos eleitores, essa parcela da sociedade tem se expressado recorrentemente nas eleições através da abstenção, votação nula ou em branco. Esse movimento tem sido escondido e secundarizado pelo sistema eleitoral obrigatório, cuja ausência na votação ou a opção pelo voto nulo ou em branco não influi no resultado eleitoral.

Se houvesse algum mecanismo institucional que permitisse a esse contingente ter alguma importância na apuração eleitoral, sobretudo se a sua soma fosse majoritária no total da votação, candidatos não teriam sido eleitos. Possivelmente, as eleições, em várias cidades, precisariam ser realizadas novamente em 2020.

Serve de exemplo, a experiência eleitoral recente na cidade de Campinas-SP, cujo prefeito eleito no segundo turno contou com votação de somente 26% dos eleitores. Democracia deveria ser expressão da maioria, não o contrário como está ocorrendo no Brasil devido às deficiências do sistema.

Fonte: Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br) *Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro deEstudos Sindicais da UNICAMP.

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