O indomável gênio da bola – o mundo mais triste sem Maradona ( Por Álvaro Barcellos)

…quero perder de vez TUA cabeça

                                      minha cabeça perder TEU juízo…

                                      (Chico Buarque/Gilberto Gil)

Quando um sujeito trata a bola com a maestria de um MARADONA, o mundo parece obedecer seu ritmo. Assim, a própria esfera do tempo, o planeta, cessa seu giro por um minuto em respeito à sua morte.

Porque entre o Supercraque argentino e a Bola parecia haver uma estranha e maravilhosa Simbiose – definitivamente, parecia um encantamento, através do qual a bola cedia a seus incríveis tratos e talentos. 

O menino Diego teve uma infância muito pobre. A família enfrentou grande dificuldade, assim como os vizinhos e amigos da vila pobre sem assistência, e com pouquíssima infraestrutura em condições tanto injustas e indignas quanto altamente desumanas. Mas o menino Diego Armando cresceu (não muito) porque havia um campinho. E uma bola. De modo que ele se deixava levar por ali e criar brincadeiras particulares em intermináveis malabarismos e embaixadinhas – pé, cabeça, joelho – e a vida parecia congelar sob seu comando naquelas tardes distantes.

Quando o Argentino Júniors o contratou (bem mais tarde, iria para o Boca e o Barcelona e o Napoli), Diego, muito novo, em um depoimento rápido, surpreendeu o jornalista ao afirmar que iria disputar Copa do Mundo. O tal jornalista na época o considerou pretensioso. Mal sabia que o menino tinha já consciência de seu potencial. Não era apenas um sonho vir a disputar algo grandioso. Seus pés lhe confirmavam e davam a ele essa convicção. 

Independentemente de nacionalidade, cor de camisa ou qualquer outra coisa, acabariam todos se rendendo à maestria do pequeno gênio…

Quando esteve bem mais tarde no Barcelona – declararia isso em dado momento – envolveu-se com cocaína e esse fato mexeu demais com sua cabeça. Teve imensa dificuldade para livrar-se do vício, mas foi algo que o fez perder um pouco o foco. Era decerto a mancha de barro humano, como diria Galeano – o escritor uruguaio.

Alguns diziam que Maradona só jogava daquela maneira porque se dopava. Quando ouvi isso da boca de um conhecido, retruquei, perguntando-lhe se adiantaria chapar o Dunga…o cara riu, e admitiu que estava dizendo uma grande bobagem. Maradona era um Mago com a bola nos pés.

Mas Diego JAMAIS esqueceu sua origem tão pobre. E jamais deixou de observar as condições tão aviltantes e mesquinhas e desumanas, onde massas de homens e mulheres são jogadas  à vida de intermináveis carências e privações. A fome o puxou pela camisa. E o menino começou a ver o mundo com olhos mais críticos. Começou a questionar o CAPITALISMO, onde pouquíssimos tem MUITO e as grandes massas não tem NADA. 

Dizia Diego que quem passou o que ele passou, quem tinha visto o que ele viu (referindo-se a uma pobreza muito cruel) se sentiria um TRAIDOR se não resolvesse COMBATER o SISTEMA e suas tantas MAZELAS. Tornou-se um MILITANTE das causas da HUMANIDADE.

Em certo momento da vida, disse Don Diego que o POVO não tinha noção de sua FORÇA. E que interessava muito ao Sistema diluir o peso da CONSCIÊNCIA com relação à LUTA de CLASSES. E sustentava que TODOS que tem origem mais HUMILDE ou que se enxergam como TRABALHADORES devem fazer a OPÇÃO em prol do MUNDO do TRABALHO – por entender o quanto o CAPITALISMO detona VIDAS e SONHOS. Polemista, Diego gerava DEBATES. E pensava também como um CRAQUE.

No final da vida (faleceu com apenas 60 anos), Diego havia driblado a coca mas não o álcool. Sua esposa propunha um tratamento. Deve doer muito a pele de um Semideus que se despede dos gramados para tornar-se um homem comum que jamais conseguiria ser.

Um dos maiores MALABARISTAS da BOLA, Maradona continuará na memória e no imaginário do POVO como um Gênio que sempre mostrou-se.

Muchas gracias, Don Diego. Descansa em paz.

Fonte: Alvaro Barcellos é Colunista da RádioCom

Imagem: Internet



Uma resposta

  1. A vida é uma tombola.

Deixe uma resposta