Como as recessões acabaram com a industrialização ( Por Marcio Pochmann)

Pela perspectiva das análises dos ciclos econômicos, as recessões se manifestariam por razões endógenas. Assim, após uma fase de ascensão do sistema produtivo, o decréscimo no nível de atividade seria esperado, podendo ser sucedido endogenamente pelo retorno à fase anterior.

No caso brasileiro, a recessão transcorrida nos governos Jânio/Jango no início da década de 1960 se encaixaria na análise dos ciclos econômicos. Isso porque após a fase alta da economia provocada pelo Plano de Metas de JK (1956-61), a desaceleração cíclica se apresentou, assim como a recuperação nos primeiros governos da ditadura civil-militar aconteceu.

Mas desde a década de 1980, as quatro recessões registradas no Brasil (1981-83; 1990-92; 2015-16; e 2020) não poderiam ser enquadradas na teoria dos ciclos econômicos, porque tanto a desaceleração como a retomada produtiva não ocorreram por razões endógenas à natureza do ciclo econômico.

Na primeira recessão dos anos de 1980, por exemplo, a queda na atividade econômica foi provocada pela decisão do governo Figueiredo (1979-85) de fazer um ajuste exportador. Ou seja, provocar a redução da demanda interna para redirecionar parte da produção para o mercado externo e, também contenção das importações para gerar um saldo comercial suficiente para o pagamento dos juros da dívida externa.

Com isso, o setor produtivo foi isolado da competição estrangeira, distanciando-se do curso e dos avanços da Terceira Revolução Industrial e Tecnológica. O atraso acumulado tornou-se ainda mais profundo pela inflação e as medidas de convivência assumida através do rentismo financeiro.

Na segunda recessão ocorrida nos anos de 1990, também por decisão governamental do presidente Collor (1990-92), a redução interna na atividade econômica se deu simultaneamente à abertura financeira, comercial e produtiva. Por conta disso, o encolhimento induzido no nível de atividade produtiva terminou sendo sucedido pela substituição de parte da produção nacional por importados mais baratos e tecnologicamente mais avançados.

A reestruturação produtiva imposta pela forma definida por autoridade política na época implicou fechar ou vender empresas industriais para o capital estrangeiro frente ao ambiente econômico desfavorável existente internamente. Além da desnacionalização, o parque produtivo passou a avançar crescentemente para a sua especialização concentrada em atividades dependentes dos recursos naturais, de contida incorporação tecnológica e de baixo custo laboral.

Nesse mesmo sentido, houve o fortalecimento do agronegócio que já havia sido impulsionado na recessão provocada no último governo autoritário (1981-83). Com a inserção passiva e subordinada promovida na recessão de 1990-92 pelo primeiro presidente eleito desde 1960, o Brasil distanciou-se da integração às cadeias globais de mais alto valor agregado, assumindo, assim, o rumo fazendão, enquanto produtor do extrativismo mineral e vegetal e exportador de commodities.

Na terceira recessão definida na segunda metade dos anos 2010 pelo governo Dilma (2015-16), a atividade econômica foi generalizadamente atingida, especialmente no que ainda restava de produção manufatureira. Tanto para enfrentar a aceleração inflacionária provocada pelo choque interno de custos (elevação tarifária, de juros, desvalorização cambial e outros) quanto para alterar o rumo das finanças públicas. A queda no Produto Interno Bruto estimulou ainda mais o processo de desindustrialização.

As dificuldades de atender a demanda interna frente ao crescimento econômico anterior motivou um aumento na saída da renda interna para o exterior. O aumento da importação de produtos com maior valor agregado para atender o consumo interno expandiu o déficit na balança comercial de manufaturados e aumentou a dependência do país à exportação das chamadas commodities.

Por fim, na quarta e atual recessão, o governo Bolsonaro, quando aceitou suspender a produção, decidiu também elevar o gasto público a descoberto, provocando o maior déficit público da República para compensar parte dos prejuízos de empresários e trabalhadores. Ainda que estas medidas amenizassem a situação negativa, não foram suficientes para solucionar os problemas inerentes à queda no nível da atividade econômica, sobretudo industrial.

Pelo contrário, as medidas governamentais tomadas fortaleceram a trajetória de subutilização da força de trabalho e precarização dos empregos qualificados, de empobrecimento e aumento da desigualdade em geral. A destruição de parte da capacidade de produção e de elos importantes das cadeias industriais seguem aprofundando a marcha em direção ao declínio no padrão de vida médio do brasileiro.

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)

*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

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