Revolução de 1930: noventa anos depois (Por Marcio Pochmann)

A Revolução de 1930 foi o acontecimento político, econômico, social e cultural mais importante do século 20, pois demarcou a passagem do Brasil agrário para a nova sociedade urbana e industrial. Suas especificidades enquanto processo de modernização conservadora resultaram, conforme interpretaram Barrington Moore Jr (As origens sociais da ditadura e da democracia) e Nicos Poulantzas (Fascismo e ditadura) para transições pregressas equivalentes em outros países, no modo de fuga para frente nas condições do capitalismo periférico.  

Noventa anos depois, as classes dirigentes emuladas no interior da sociedade urbana e industrial perderam o sentido, permitindo retornar ao centro do poder e da riqueza, o velho, porém renovado, bloco de poder fundador da República (1889) e da instalação tardia do capitalismo no Brasil. De certa forma, houve uma aliança entre as forças do imperialismo britânico e do agronegócio que desde o final do século 19 mudaram o regime (de monarquia para República) para manter e se manter no poder agrarista.  

Na Depressão de 1929, a decadência inglesa aliada ao desmonte do projeto agrarista exportador permitiu ascender o movimento modernista-tenentista, reposicionando o rumo do país para o seu mercado interno como a nova referência para a centralidade da soberania nacional. Na sequência, a evolução da burguesia industrial no Brasil revelou que o capitalismo local seria a antítese da economia de mercado, cuja expansão se confundiria com a ascensão do poder estatal, conforme registrado para outras realidades nacionais pelo historiador Fernand Braudel (A dinâmica do capitalismo).   

Mas para isso, havia a recorrente necessidade de driblar o conservadorismo do poder legislativo liderado, em geral pelos interesses paralisantes do agrarismo (monocultura exportadora, latifúndio rentista e dominação pela violência bruta). Dominado por mais de 90% do total de parlamentares convictos da “vocação agrária” ainda na década de 1930, o Brasil seguiu na década de 1960 com mais de 2/3 do congresso nacional assentado nos interesses do agronegócio. 

Somente ao final do século 20 que o agrarismo se reduziu a ¼ do poder legislativo nacional. Na virada para o século 21, o agronegócio se articulou em novas bases com as forças internas e externas da financeirização e voltou a crescer a sua representação parlamentar.  

Nas eleições de 2018, por exemplo, mais da metade da representação do congresso nacional estava comprometida com o agrarismo primário-exportador. Era o retrato da desindustrialização nacional, da perda de poder político da burguesia industrial e da sua força econômica.  

Apagados cada vez mais os vestígios da Revolução de 1930, conforme impõe a vontade do receituário neoliberal adotado desde os anos de 1990, resta cada vez mais uma gestão da “massa falida” representada pela região sudeste do país. Na República Velha (1889-1930), o agronegócio tinha como “pedra no sapato” a administração decadente das velhas oligarquias do nordeste e suas ações desastrosas, como a repressão à Canudos (1896). 

Na terceira década do século 21, o pujante agronegócio do centro-oeste encontra-se gerindo as consequências da falência do “centro-sul maravilha”. Não causa espanto saber que o centro do fanatismo religioso e do crime organizado do país tem suas conexões internas e externas produzidas e reproduzidas a partir do empobrecimento dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.  

Mas ao contrário das experiências passadas, o agronegócio na atualidade parece ser mais fraco e atrasado enquanto capacidade de gerenciar o declínio nacional. No passado, a tecnologia, os insumos de produção e as condições de comercialização pertenciam às oligarquias primário-exportadoras do país. Atualmente, o agronegócio está nas mãos das corporações transnacionais (ADM, Bunge, Cargil, Basf e algumas outras), dependem da importação de equipamentos e insumos (fertilizantes, sementes, tratores, colheitadeiras) e, sobretudo, das condições de exportação (trading). Até a terra, com crescente ascensão do capital estrangeiro, parece indicar o quanto o abandono das bases introduzidas pela Revolução de 1930 está lançando o país no desespero de horizontes sem saídas. Não atenuam a situação, nem mesmo a fuga para frente a que a burguesia industrial brasileira usou ao longo dos nos últimos 90 anos.

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)

*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

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