Neoliberalismo e a armadilha do decrescimento  (Por Márcio Pochmann)

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A armadilha do decrescimento econômico aprisiona o Brasil desde a segunda metade da década passada. Por conta disso, a possibilidade de o país retomar o nível do Produto Interno Bruto (PIB) alcançado em 2014 fica distante, podendo inclusive, perder-se do ponto de vista econômico como repetição do que ocorreu nos últimos anos. 

No ano de 2015, por exemplo, a economia brasileira foi 3,5% menor que a de 2014 e, em relação ao PIB, a dívida pública bruta aumentou 11,8%. No mesmo ano, a participação da indústria de transformação era 1,9% maior que a de 2014, enquanto a agropecuária permaneceu estável e os serviços 1,6% superior. A taxa nacional de desemprego aberto subiu 36,9% e o investimento público caiu 12%.   

Quatro anos depois, em 2019, a economia brasileira seguia sendo ainda 3,1% inferior à de 2014 e, se relacionado ao PIB, a dívida pública bruta havia aumentado 33,8% e a arrecadação tributária subido 4,1%. Já a participação da indústria de transformação no PIB de 2019 foi quase 9% inferior ao ano de 2014, ao passo que a agropecuária cresceu 2,3% e o setor de serviços 1,6%. A taxa nacional de desemprego aberto estava 69,2% superior, enquanto o investimento público havia decrescido 48%. 

Com a equipe econômica dos sonhos do mercado financeiro tomando conta do país, a armadilha do decrescimento está recebendo um impulso a mais. Tanto assim, que o governo Bolsonaro, aquele que se apresentou como antissistema, completou o seu primeiro ano de governo diante do conjunto das atividades produtivas do país em declínio.  

Depois do “pibinho” de variação 1,3% nos anos de 2017 e 2018, os ultraliberais do superministério da economia bolsonarista conseguiram, no ano de 2019, desacelerá-lo para apenas 1,1%. Além disso, terminaram impondo o recuo de -1,5% na economia nacional, logo no primeiro trimestre de 2020, antecipando a volta da recessão, mesmo ainda antes da chegada efetiva da pandemia da Covid-19. 

Em se confirmando a queda do PIB em torno de 6% para o presente ano, a economia brasileira deverá fechar o ano de 2020 com o nível de produção quase 10% abaixo do que havia sido em 2014. A dívida pública bruta/PIB, por sua vez, poderá ser 73% superior à do ano de 2014 e a arrecadação tributária praticamente estagnada.  

Também em 2020, a participação da indústria de transformação poderá registrar queda ainda mais intensa, com relativa estabilidade na agropecuária e pequena expansão nos serviços. Com isso, a taxa nacional de desemprego aberto deverá multiplicar-se 2,1 vezes, enquanto o investimento público praticamente não se alterou. 

Para 2021, a economia brasileira corre o sério risco de não crescer novamente. Se prevalecer o orçamento federal com o corte no aporte de recursos públicos equivalente a quase 10% do PIB, injetados no orçamento público extraordinário de 2020 (orçamento de guerra), o conjunto das atividades econômicas deverá continuar sem vigor expansivo próprio.  

O país, mais uma vez, ficará dependente do resto do mundo, cujas projeções de expansão não são nada animadoras. Da lista dos 200 países no mundo, somente dois, talvez, terão condições de apresentar algum resultado positivo no PIB em 2020 (China e Indonésia). Para o ano de 2021, a quantidade de países que deverá retomar o crescimento econômico poderá ser maior, porém insuficiente, ao que parece, para estimular consistentemente a retomada do comércio mundial.    

Mesmo diante deste quadro desfavorável, o governo Bolsonaro proclama, com amplo apoio da mídia comercial e dos porta-vozes do dinheiro, a intenção de voltar, a partir de 2021, ao normal econômico do período que antecedeu a pandemia da Covid-19. Quer dizer, voltar ao “pibinho” com variação média anual de 1,2% ao ano.  

Sendo assim, mantidas estas taxas de crescimento, a volta do normal só atingirá o valor do PIB de 2014 no ano de 2030. Com o encolhimento acumulado da renda per capita nacional entre os anos de 2015 e 2020, estimado em 13%, o retorno ao normal econômico que antecedeu a pandemia da Covid-19 terminará por postergar demasiadamente a recuperação.  Se a variação média do PIB for de 1,2% ao ano, a renda per capita do brasileiro só voltará ao patamar de 2014 daqui a quase três décadas. Ou seja, por volta do final dos anos de 2040.  

Este é o roteiro econômico neoliberal escrito pelos sujeitos do golpe de 2016, que encerrou o legítimo governo Dilma sob o argumento da desordem nas contas públicas, segundo a vulgata da pedalada fiscal.  

Nos quatro anos seguidos sem o governo do PT e de cumprimento da agenda neoliberal a economia brasileira foi arrasada, o povo empobrecido e os ricos ainda mais ricos, enquanto as contas públicas e privadas cada vez mais inchadas e ameaçadas de calote. Só a mídia comercial parece desconhecer o que se passa no Brasil e prefere cobrar autocrítica do Partido dos Trabalhadores.  

Relacionado ao tema, Terapia Política publicou recentemente o artigo de Adhemar Mineiro “As dificuldades para construção de um novo ciclo de desenvolvimento” .

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)

*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

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