Uma nova Canudos em construção? ( Por Marcio Pochmann)

Neste início da terceira década do século 21, o declínio da economia brasileira, para além de conjuntural, possui natureza estrutural. O país não apenas se desfez dos setores tradicionalmente dinâmicos vinculados à indústria de transformação como se distanciou das possibilidades de incorporar os novos segmentos produtivos integrados ao atual salto tecnológico.

Enquanto a China, por exemplo, trata do seu novo plano quinquenal centrado no desenvolvimento da inteligência artificial de nova geração, o Brasil se defronta com o atraso da atualidade de uma falsa rebeldia governamental em torno da vacina anti-Covid-19. De certa forma, o Brasil transparece voltar ao passado da República Velha (1889-1930) que conviveu, em 1904, com a denominada revolta da vacina contra a epidemia da varíola.

Ou ainda, o retorno ao Brasil do Império (1822-1889), tendo em vista o informe de 40% das vagas abertas no setor de serviços no mês de 2020 terem sido na forma de locações temporárias. Destaca-se que o contrato de aluguel de mão de obra livre foi instituído no ano de 1879, com a Lei Sinimbu que autorizava alocar trabalhadores em meio ao predomínio da escravidão.

A desconexão continuada das autoridades com as questões reais da população tem trazido complicações políticas de importância não desprezível. Na virada para o século 20, durante a consolidação do capitalismo no país, a preocupação com o sofrimento gerado pelo atraso social da pobreza e desigualdade e da violência e fanatismo religioso foi acompanhada de intensas revoltas (Canudos, Contestado, Chibata, coluna Prestes e outras).

A histórica experiência de Canudos revelou o quanto multidões de empobrecidos e desgarrados geradas pela decadência agrária pode gerar alternativas ao capitalismo assentadas, na época, na mistura da economia solidária com a utopia religiosa conduzida por seu líder, Antônio (Maciel) Conselheiro. Na década de 1890, quando Salvador possuía a segunda maior população do Brasil, com quase 175 mil habitantes, Canudos chegou a deter 25 mil habitantes, o equivalente a 1/7 da capital da Bahia, cuja autonomia e modo de vida distintas do capitalismo nascente foram massacradas pelas forças do Estado policial da República Velha.

No Brasil atual, outro espectro ronda a nação. Mesmo com as diferenças marcantes em relação ao passado longínquo do final do século 19, ferve enorme grau individual de insatisfação no seio da população, sobretudo nas massas sobrantes aos requisitos do capital.

O curso da decadência capitalista tem produzido e reproduzido enorme contingente de inorgânicos, que excluídos das possibilidades de vida mercantil, serve à sustentação crescente do fanatismo religioso e das milícias de jagunços. Quanto mais avança o Estado neoliberal, conforme tem imperado em grande parte das periferias e favelas das cidades brasileiras, maior espaço para o avanço de situações com potencial aproximado ao de Canudos do final do século 19.

Nesse sentido, há a percepção evidente de que se trata do ambiente nacional forjado pelo próprio declínio estrutural a que a economia e a sociedade encontram-se submetidas às decisões governamentais assentadas na adoção do receituário neoliberal. O seu predomínio desde o final do século 20 no Brasil impôs a regressividade produtiva e distributiva de grande dimensão, que afetou especialmente a classe trabalhadora.

Na pandemia da Covid-19 em 2020, as consequências no nível da produção e consumo conduziram a mudanças significativas e não homogêneas na estrutura ocupacional do país. As medidas governamentais adotadas não se mostraram suficientes para evitar o aprofundamento da tendência de desestruturação do mundo do trabalho, com o desemprego e ampliação das ocupações precárias.

Isso porque a recessão econômica atual parece ser a mais grave quando comparada com as três anteriores registradas (1981-83, 1990-92 e 2015-16). Em função disso, diferentes segmentos laborais passaram a ficar expostos à realidade comum, ainda que essa possa ser distinta em relação ao desemprego, à subocupação e ao rebaixamento do rendimento.

Nesse contexto tão desfavorável à classe trabalhadora, o rearranjo em marcha no interior da classe dominante iniciado há quatro décadas busca sustentar a prevalência do receituário neoliberal. Pela regressão imposta ao mundo do labor, a constatação que se generaliza não encontra limites apenas na deterioração das condições de vida e trabalho, mas também na ausência de horizonte viável a garantir qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

A alternativa “à la Canudos” pode emergir justamente em função do sumiço de perspectiva viável para uma vida melhor às massas excluídas do capitalismo no país. Ou seja, há um papel estratégico que as organizações vinculadas ao crime e ao fanatismo religioso passam cada vez mais a assumir em resposta ao desmonte da nação.

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)

*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

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