Bolívia vai às urnas; esquerda, favorita, tenta reverter golpe de 2019

Cerca de 7 milhões de bolivianos vão às urnas neste domingo (18/10) para participar das primeiras eleições gerais no país desde o golpe de Estado de novembro de 2019, que forçou a renúncia do ex-presidente Evo Morales.

Nesses 11 meses, a Bolívia foi governada por uma ex-senadora de direita, Jeanine Áñez, que se autoproclamou presidente interina ainda em novembro de 2019. Sob esse governo, o país foi palco de violenta repressão contra movimentos populares de esquerda, tentativas de impedir candidaturas do Movimento ao Socialismo (MAS) – o partido de Evo – e uma perseguição judicial contra Morales, que está até hoje refugiado na Argentina em condição de asilo político.

Entretanto, o ex-ministro da Economia Luis Arce, candidato do MAS à presidência, pretende reverter esse cenário e levar novamente a esquerda ao governo boliviano. Tendo como candidato a vice o ex-chanceler David Choquehuanca, Lucho Arce (como carinhosamente é chamado pelos bolivianos) é o favorito na disputa, com chances de ser eleito logo no primeiro turno.

Segundo pesquisa divulgada pelo Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (CELAG) no início do mês, Arce aparece com 44,4% das intenções de voto, à frente de Carlos Mesa, o principal nome da direita, que tem 34%. De acordo com as leis eleitorais da Bolívia, para a eleição ser definida já no primeiro turno, o vencedor deve ter 50% mais um dos votos ou conquistar mais de 40% e abrir mais de 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado.

A escolha de Arce, um economista de 57 anos de idade, para ser o candidato do MAS nessas eleições se deu por conta de seu reconhecido trabalho à frente do Ministério da Economia, sendo constantemente conectado aos avanços econômicos que a Bolívia alcançou durante os anos de governo Morales.

O presidenciável assumiu o comando da pasta pela primeira vez durante o primeiro mandato de Evo, em 2006, e chefiou a economia boliviana ininterruptamente até 2017. Retornou ao posto em janeiro de 2019 e só deixou o cargo em novembro do mesmo ano, após o golpe de Estado.

Segundo dados do Banco Mundial, 63% da população vivia abaixo da linha da pobreza em 2002. Já em 2018, com Arce comandando a economia boliviana, esse número foi reduzido para 35%. Além disso, números do governo apontam para um crescimento no PIB desde que Morales assumiu, partindo de US$ 9,5 bilhões para US$ 40,8 bilhões.

Por sua vez, o ex-presidente Carlos Mesa, principal opositor de Arce na disputa eleitoral deste domingo, adota um discurso anti-esquerda para conseguir uma vitória nas urnas e se tornar o candidato que evitará o retorno do MAS à presidência.

“Evitar o retorno do MAS” tem sido uma expressão amplamente utilizada pela direita boliviana que, a princípio, havia se dividido em cinco expressivas candidaturas, mas chega na reta final com apenas três que podem ter algum efeito na correlação de forças: além de Mesa, o ultraconservador católico Fernando Camacho, que foi um dos líderes do golpe de Estado de 2019, e o pastor evangélico Chi Hyun Chung.

A autoproclamada presidente Jeanine Áñez desistiu da disputa no início de setembro, com a justificativa de fortalecer o campo da direita e impedir uma vitória de Arce. O último a retirar a candidatura foi o ex-presidente Jorge Quiroga, que anunciou sua desistência no dia 11 de outubro prometendo “fazer tudo o que estiver ao meu alcance” para evitar a vitória do MAS.

Com Camacho em terceiro e Chung em quarto colocados nas pesquisas, o principal nome da direita continua a ser Carlos Mesa. Jornalista e historiador, o direitista governou o país entre os anos de 2004 e 2005, após a renúncia de Gonzalo Sánchez de Lozada.

Além do próximo presidente, os bolivianos decidem a formação do Congresso nessas eleições que já foram adiadas três vezes. São 36 vagas para o Senado e 130 para a Câmara dos Deputados.

Mais um golpe?

Riscos de que o país possa viver mais um golpe de Estado foram destaque na imprensa nas últimas semanas. Documentos citados pelo jornal britânico The Morning Star indicam que militares ligados ao governo de Áñez e forças da extrema direita planejam realizar atentados com bombas e um golpe para impedir uma vitória do MAS.

Segundo o periódico, as forças de extrema direita preparam um “falso positivo”, ou seja, realizar ataques com bombas e colocar a culpa no partido de Luis Arce. Os alvos desses atentados, diz o jornal, seriam hotéis onde estarão hospedados observadores internacionais de diferentes órgãos do mundo que acompanharão as eleições.

De acordo com as fontes do Morning Star, “paramilitares de extrema direita nacionalistas estão trabalhando há um mês para reunir informações sobre os hotéis onde estarão hospedados os observadores internacionais, incluindo detalhes de como entrar nos lugares e deixar pistas para incriminar o MAS”.

O objetivo dos ataques, continua o periódico, seria criar uma justificativa para adiar as eleições mais uma vez e retirar o MAS da disputa, sob a acusação de que o partido estaria promovendo atos violentos. O resultado poderia ser o fechamento da Assembleia Nacional e a instalação de um “governo militar de emergência”.

Para Daniel Valença, professor da Graduação e Mestrado em Direito da UFERSA e coordenador do Grupo de Estudos em Direito Crítico, Marxismo e América Latina (Gedic), há um risco concreto de um outro golpe de Estado no país para evitar que o MAS assuma o governo, caso saia vitorioso do processo eleitoral.

“Por isso, é fundamental que cada pessoa acompanhe o que está acontecendo na Bolívia, se solidarize com os trabalhadores bolivianos e faça pressão internacional para impedir mais um golpe de Estado e mais repressão”, disse.

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Fonte: Opera Mundi

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