RACISMO – o império da vergonha ( Por Álvaro Barcellos)

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Entre nós, a questão terrível do racismo começa a estabelecer-se a partir da invasão das frotas de Cabral: 1500. 

Os habitantes nativos (indígenas) passam a ser para aqueles homens brancos, ambiciosos e que atravessaram largas extensões oceânicas, como meros empecilhos aos interesses dos invasores. Que os viam como raça preguiçosa e que passa o dia cantando, dançando e adorando o sol, a chuva, a lua…Seriam, portanto, aos olhos do invasor uma espécie de sub-raça. A tal ponto que a própria Igreja apenas no século 18 viria a admitir que os índios tinham alma, como lembra o escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Somado a tudo isso – e ao fato de os nativos se recusarem a praticar trabalho escravo em suas próprias terras –, os senhores brancos, ávidos de poder e riqueza, passam a buscar força escrava onde quer que fosse: para tal, arrancam do solo africano negros e negras que pudessem servir a seus propósitos e ganâncias. 

As condições terríveis daqueles homens em navios negreiros eram cantadas e denunciadas por homens como o poeta baiano Castro Alves.

Nas fazendas espalhadas pelo país, as péssimas condições do povo negro escravizado eram aviltantes: humilhações, estupros, abusos e chibatadas eram tão frequentes que já eram encaradas com certa naturalidade – o que gerava aqui e ali revoltas e tentativas de fugas. Que provocava ira nos senhores que partiam para retaliações organizadas. Assim, espalhavam seus homens (lacaios) que saíam campo afora (campos dos senhores, naturalmente) à caça dos pretos fujões. Triste perceber que quem os caçava não vivia em condições muito melhores em relação aos fujões: eram brancos muito pobres e explorados ou mesmo outros negros aliciados pelos senhores, dos quais se tornariam capangas. Eram os Capitães do Mato a fazer um trabalho porco de perseguir os negros que já não suportavam tanta dor.

Houve algumas reações organizadas – o arraial de Canudos, do beato Antonio Conselheiro, por exemplo, no interior da Bahia, organizava suas próprias leis, e era povoado por negros fugidos da escravidão, indígenas perseguidos, e brancos pobres: os sertanejos, que resistiram heroicamente a duas pesadas investidas do exército oficial, como relata Euclides da Cunha em Os sertões. Até a terceira batalha, em que o rio teve seu curso alterado por uma barragem que acabaria por inundar Canudos, matando grande parte do seu povo.

Havia os Quilombos, onde se refugiavam negros e negras que escapavam das estâncias. O mais famoso foi o Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi – símbolo de resistência da luta secular do povo afrodescendente.

Aconteceram iniciativas de branqueamento da população – com pesada investida contra pretos e pardos, com muito sangue derramado e muita morte a manchar os caminhos. Na tentativa tão vã quanto estúpida de fazer da América Latina um amplo espaço de brancos.

O mundo em dado momento começa a despertar para ouvir os discursos apaixonados e inflamados de figuras como Nelson Mandela e Martin Luther King, que passam a ganhar posição de destaque na luta intransigente dos povos, por Direitos Civis e Humanos – por dignidade, não-discriminação, igualdade. 

Porém, os discursos de ódio, covardia e violência ressoam e geram experiências terríveis como o nazismo e o fascismo, e seus desdobramentos, apregoando a ideia estúpida de raça superior, gerando um tipo perverso de branco de posições nefastas e atitudes que só fazem depor contra a paz e a dignidade humanas, atestando o quanto o povo europeu acostumara-se a tratar os demais povos.

Hoje no Brasil, temos, de um lado, como resultado de alguma ação organizada, um povo negro mais consciente no sentido de orgulho de sua imensa contribuição, e de outro o uso de muita violência oficial, que só faz aumentarem as tantas contradições do capitalismo: com uma polícia que de modo geral pensa e age como branca (num sentido muito ruim), ainda que haja um enorme contingente de policiais pretos e pardos. Que, no entanto, são treinados para encher de porrada outros pretos e pardos…sobretudo pobres.

As cartas estão sobre a mesa. Mas há ainda um longo caminho a ser vencido. Enquanto a Amazônia arde em chamas, com mortes de centenas e centenas de famílias de indígenas, que permanecem isolados e sem força política, também nos grandes centros urbanos, em especial nas favelas e subúrbios mais empobrecidos, o povo negro continua alvo das tantas violências do sistema.

Vidas Negras Importam!

Vidas Indígenas importam!

Porque, em última análise, a Vida e o Mundo podem e devem ser muito mais plenos. Tudo pode e deve ser muito melhor. Para que tenhamos algum futuro.

No fundo, só há – sabemos – uma raça: a HUMANA. 

Fonte: Álvaro Barcellos é Colunista da RádioCom

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