À deriva em plena pandemia

postado em: Sem categoria | 0
O Laranjal tem sido bem emblemático na aglomeração. Foto: Diário da Manhã

Após ignorar as recomendações de pesquisadores e recorrer à flexibilização, Pelotas terá “lockdown fake”.

Por Felipe Vidinha

A cidade de Pelotas, agraciada pelo fato de ter a EPICOVID19-BR, pesquisa que mapeia a epidemiologia do coronavírus no Brasil, a principal pesquisa do país e uma das maiores no mundo, sendo feita pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a cidade infelizmente, chega aos cinco primeiros dias de agosto anunciando um lockdown para inglês ver. Serão apenas três dias, iniciando no sábado somente depois das 20 horas, enquanto as vagas de UTI´s estão praticamente esgotadas.

Para o reitor da UFPel, Epdemiologista e Pesquisador, Pedro Curi Hallal, as recomendações de um isolamento mais rígido foram feitas desde abril. A pesquisa gaúcha epidemiológica já mostrava necessidade de testagem em larga escala e a busca ativa de quem poderia ter tido contato com o vírus.

Mesmo com diversos exemplos pelo mundo todo, do sucesso com a testagem em massa e das medidas sérias e rígidas de isolamento social, o Brasil fechou os olhos. “O que nos impede de fazer um lockdown rigoroso neste momento? Até para economia é melhor, porque aí fica duas semanas parado, totalmente parado e despois volta com um pouco mais de fôlego”. – o reitor concedeu entrevista à RádioCom antes do anúncio de lockdown pela prefeita.

Ainda segundo o reitor, somente duas ações, além da vacina, que ainda não existe, poderiam ser adotadas como contenção à propagação do vírus:

A testagem em massa, identificando precocemente os casos e rastreando os contatos, para identificar cedo a doença. “Essa estratégia de testar rápido, testar bastante e ir atrás dos contatos, é uma estratégia que está muito longe da nossa realidade. Desde março a gente fala isso e o Brasil não fez isso, nem o Brasil, nem Rio Grande do Sul e nem Pelotas”. É uma medida que demandava uma enorme sinergia e organização dos entes do estado, que deveriam ter feito um planejamento e, ao invés disso, negaram a gravidade do que estaria por vir.

E a outra medida, o distanciamento social, evitando o contato de quem está contaminado com outra pessoa suscetível a contrair o vírus. Sem o encontro destes dois atores, não há chance da propagação do vírus.

O estado como um todo, experimentou uma escalada sutil do número de casos, durante os meses de março a maio. Neste período, a população ainda estava engajada às medidas de distanciamento. Sem ações efetivas do estado para manutenção das necessidades básicas das pessoas, muitas se viram obrigadas a deixar o isolamento para sua subsistência. Mesmo de posse de um estudo científico, no mês abril, o governador Eduardo Leite, anunciou a possibilidade flexibilizar as medidas para municípios com bandeira vermelha, portanto com uma maior restrição de circulação e atividades.

Nas primeiras classificações de risco com bandeira vermelha, em um primeiro momento Pelotas não recorreu. Mais recentemente, devido ao gradativo aumento do número de casos, a cidade voltou a ser classificada com a bandeira vermelha, a gestão ouviu a opinião dos especialistas de que não deveria recorrer e decidiu acatar a recomendação. Isto desencadeou uma série de articulações, reclamações, cartas e notas de desagrado por parte de um grupo de empresários da cidade, que se retiraram do grupo de discussão com a prefeita. Após novas classificações com bandeira vermelha, a prefeita Paula Mascarenhas então cede a essas pressões, feitas fora de um diálogo razoável com todos envolvidos e ouvindo o contraditório, fundamentais para análise de uma situação tão séria. Isso infelizmente contribui para significativo aumento do número de casos que atualmente são mais de 50 novos casos a cada dia na cidade.

“Neste caso local, tem sido uma derrota dura, eu achava que a nossa pesquisa talvez não sensibilizasse tanto no âmbito federal, mas eu achei que localmente ela sensibilizaria mais, e infelizmente eu não tenho visto isso”, diz o reitor.

São mais de 97 mil mortos no país e o Ministério da Saúde não utilizou todo recurso disponível para combate a pandemia. Apesar disso, o ministério suspendeu a pesquisa nacional desenvolvida pela Universidade Federal de Pelotas, mesmo com todo reconhecimento e relevância dos estudos. A motivação, questões políticas para não deixar avançar o estudo contratado pelo antigo gestor. O governo brasileiro, é infelizmente, uma das piores gestões de combate a pandemia, primeiro ao negar a crise de saúde, com o cruel e famoso dar de ombros do presidente da república, ante aos números de vítimas, com frases como: “E daí?” e “Eu não sou coveiro”; e depois, com o caos instalado e uma gigantesca contaminação dos próprios integrantes do governo, a recomendação de uma medicação sem comprovação científica, como uma bala de prata, capaz de resolver a pandemia e encorajar os inocentes ou ingênuos a contrair a doença para acabar com necessidade de isolamento.

Estudos mostraram que o lockdown feito de maneira séria, propicia uma retomada mais rápida da economia, apesar de vários bons exemplos que precederam Pelotas, com base em ciência e informação, a sede pelo capital cegou a razão.

Veja logo abaixo a entrevista do Reitor da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Curi Hallal, concedida ao Programa Contraponto Entrevista.

*Felipe Vidinha é estudante de jornalismo da UCPel

Deixe uma resposta