Projeto irá mapear as experiências de abastecimento alimentar pelo Brasil em tempos de coronavírus

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Projeto quer entender como a produção e a distribuição de alimentos saudáveis tem sido mantida no país em meio a crise sanitária. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Luciano Velleda

Foi pensando sobre como a pandemia do novo coronavírus impacta na produção de alimentos, ao mesmo tempo em que cresce o desemprego e a fome, que um grupo de nove pesquisadores começou a esboçar, em abril, o projeto que agora se concretiza com o lançamento da “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia”.

Planejada para durar 12 meses, a iniciativa pretende dar visibilidade às formas de resistência que surgiram para manter a distribuição de comida saudável, mesmo durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos, além de debater a necessidade de políticas públicas para o setor alimentar. Ações bem sucedidas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), por exemplo, estão hoje sucateadas, assim como linhas de crédito e financiamento para o pequeno agricultor.

Nos seis primeiros meses, a Ação Coletiva Comida de Verdade quer mapear as estratégias de produção e distribuição de alimentos que têm feito produtos agroecológicos chegar à mesa das famílias de todo o país. O risco de haver uma crise alimentar era um temor durante a pandemia e algo que, até agora, não aconteceu. As experiências mapeadas serão cadastradas na plataforma Agroecologia em Rede (AeR), um sistema de informações sobre iniciativas de agroecologia que reúne mais de 1.600 experiências de base popular e agroecológica. Os outros seis meses do projeto serão dedicados à análise dos dados.

Além de mapear as ações criadas para o alimento continuar chegando ao consumidor, a iniciativa também promoverá seminários com pesquisadores, gestores públicos e agricultores. “Precisamos debater e repensar como construir um futuro alimentar melhor, como tornar mais ecologicamente sustentável e inclusivo”, explica Potira Preiss, pesquisadora pós-doc no Programa de Pós-Graduação e Desenvolvimento Regional da Universidade de Santa Cruz do Sul.

Ao lado de Matheus Zanella, consultor da Aliança Global para o Futuro da Alimentação, Potira será a mediadora do seminário de lançamento da Ação Coletiva Comida de Verdade, nesta sexta-feira (31), a partir das 17h, com transmissão on-line pela página da iniciativa no Facebook. Participam do debate Paulo Petersen, coordenador executivo da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia; Elisabetta Recine, professora da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional; Maria Kazé, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores do Piauí; e o jornalista João Peres, criador do site O Joio e O Trigo.

O seminário de lançamento será o primeiro de uma série que visa debater os impactos da crise do coronavírus na produção e acesso aos alimentos saudáveis no Brasil, assim como identificar e compreender as experiências de abastecimento alimentar protagonizadas por movimentos sociais do campo e da cidade, organizações populares e coletivos. Ao todo, 13 organizações participam da Ação Coletiva Comida de Verdade, imbuídas do desejo de promover soberania e segurança alimentar e nutricional, bem como a realização do direito humano à alimentação adequada.

“Pretendemos aprofundar as reflexões e trocas entre atores diversos que protagonizam, articulam e estudam os sistemas agroalimentares, sejam aqueles que estão na frente da produção e comercialização enfrentando os desafios que a pandemia traz, as organizações que exercem papel fundamental em facilitar o fluxo dos alimentos entre o campo e a cidade, ou mesmo os estudiosos que se dedicam a compreender os impactos sociais e políticos do que está acontecendo. Dessa forma, pretendemos colher os diversos saberes e olhares, contribuindo assim para qualificar o debate sobre o tema, mas também a busca de soluções conjuntas”, afirma Potira, coordenadora executiva da Ação Coletiva Comida de Verdade.

O alimento do RS na pandemia

Para fazer o mapeamento das ações de abastecimento alimentar em curso, a Ação Coletiva planeja ter um articulador em cada região do Brasil. No Rio Grande do Sul, a pesquisadora Potira Preiss destaca que a pandemia do coronavírus começou num cenário de forte estiagem, seguido pela chegada do inverno e até mesmo a passagem de um ciclone, complicadores para a agricultura familiar.

Há ainda o contexto dos produtores gaúchos, a maioria homens, em idade mais avançada e em difícil situação sócio-econômica, tornando-os grupo de risco para o coronavírus. Depois de um período de baixo contágio e maior concentração na Capital, o vírus agora tem se espalhado pelo interior do Estado e alcançado as pequenas localidades. “É sempre mais difícil o tratamento quando se está na área rural”, pondera Potira.

Outro exemplo do risco enfrentado pelos produtores são as feiras agroecológicas de Porto Alegre. Embora apenas 9 das 21 estejam ativas nesses meses de pandemia, somente 10% dos alimentos expostos são provenientes de agricultores da Capital. Todo o restante dos produtos vêm de diferentes localidades, como o litoral, a região metropolitana e os assentamentos do MST. “Nossas feiras dependem de alimentos que vêm de outras regiões”, explica a coordenadora executiva da Ação Coletiva Comida de Verdade.

Para manter a oferta de produtos à disposição da população, agricultores se deslocam semanalmente à Capital, o epicentro da epidemia no Rio Grande do Sul. Os cuidados para evitar a contaminação, salienta Potira, são muitos, apesar do ambiente ao ar livre diminuir a possibilidade de contágio e do movimento de clientes, que antes da pandemia era de cerca de 12 mil pessoas, hoje estar em 4 mil.

Com menos da metade das feiras agroecológicas em funcionamento, a pesquisadora enfatiza o crescimento das entregas à domicílio. Uma estratégia adotada como alternativa e que tem sido importante para manter a renda dos produtores, além de possibilitar com que outros públicos comecem a ter acesso a alimentos orgânicos e saudáveis. Informações que a Ação Coletiva Comida de Verdade pretende mapear para depois compreender como a crise do coronavírus impacta na produção e acesso aos alimentos saudáveis no Brasil.    Leia Mais

Editoria: Coronavírusz_Areazero

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Fonte: Sul 21

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