Presidente do Conselho Municipal de Saúde comenta divergências com a Aliança Pelotas e ações de combate à pandemia

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O número de casos de Covid-19 em Pelotas aumentou 244% em apenas um mês. Em 23 de junho, o município contabilizava 203 infectados, 2 óbitos e 6 internações. Esse número saltou, em 23 de julho, para 700 infectados, 14 óbitos e 31 internações. 

Mesmo enquanto o Brasil registra recorde de novos casos em 24h e alcança, nesta sexta-feira (24), 2.289.951 pessoas infectadas e 84.207 mortes, a pressão pela reabertura do comércio é grande em todo o país. Em Pelotas, a situação não é diferente. Há divergências em relação a possibilidade de reabertura de estabelecimentos, o que resultou até mesmo em um racha entre a prefeitura e o Comitê de Crise do município. 

Após duas semanas seguidas em que a cidade esteve classificada como bandeira vermelha, retornou à bandeira laranja, em mapa da 11ª rodada do Distanciamento Controlado contra a Covid-19 no estado. 

A mudança, assim como a pressão que a Prefeitura tem sofrido do empresariado local, é vista com preocupação pelo presidente do Conselho Municipal de Saúde de Pelotas, Luiz Guilherme Belletti. Em entrevista à ADUFPel, ele falou sobre a interferência do grupo Aliança Pelotas – entidade que reúne as principais associações empresariais – na tomada de decisões, posicionou-se sobre o descaso do governo estadual com os hospitais da região e comentou se as medidas preventivas adotadas têm sido efetivas. 

Como o Conselho Municipal de Saúde analisa a postura da Prefeitura, que parece ceder ao empresariado local? E como tem se posicionado diante disso? 

O Conselho tem se posicionado fortemente e juntamente com os epidemiologistas de Pelotas, principalmente com os epidemiologistas da Universidade Federal, que têm uma posição bem coerente com a realidade e com as normas técnicas. Nós temos procurado acompanhar. Nesse sentido, e, dentro da nossa experiência, nós conseguimos fazer nossas manifestações, e com as manifestações da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], que tem se posicionado também da mesma forma. Junto aos técnicos, tanto da Universidade Federal quanto da Universidade Católica e até mesmo dos hospitais locais, o Conselho tem se posicionado baseado nesse sentido, e acho até mesmo absurdas [atitudes do empresariado local]. Diante desse motivo, eu fui, de uma certa forma, agredido dentro do Conselho pelos membros da Aliança Pelotas. 

Vou citar dois exemplos horríveis do que aliança Pelotas pediu dentro do Comitê e que nós fomos fortemente contrários, juntamente com outras pessoas. Um dos pedidos da Aliança foi para que voltássemos a ter exposições de gado presenciais, que na Associação Agrícola se realizassem posições de gado de forma presencial como vinha ocorrendo antes da pandemia. Algo horrível que a própria direção da Associação não tinha essa posição. Conversando depois com os diretores, me falaram, em um outro Conselho, que nunca foi o pensamento da direção da Associação Rural de fazer a exposição, mas foi algo defendido pelo grupo anterior da Aliança, que estava dentro do Comitê. Outro pedido horrível deles foi de ser realizado, em um clube de Pelotas, na Fernando Osório, uma exposição de canários. Pássaros vindos até mesmo de fora do estado. Os pássaros, talvez, não sejam contaminantes, mas as pessoas que vêm com esses pássaros poderiam estar infectadas. E, também, praticamente o restante do grupo foi totalmente contrário a isso. Então, o Conselho, a OAB, a Universidade Federal e outros têm se posicionado totalmente contrários ao que a Aliança Pelotas tem proposto na grande maioria das situações. Como a economia precisa andar, em alguns pontos, e muito poucos, temos realizado negociações com eles para que a economia não pare e a população não perca o emprego, mas discordamos em praticamente 100% das propostas que os quatro representantes da Aliança Pelotas têm se posicionado dentro do grupo.

Poderias falar um pouco mais sobre esse pontos que vocês têm conversado? 

Na discussão sobre a economia local, tanto o Conselho quanto Fórum dos Conselhos, a OAB e outros órgãos fora do setor epidemiológico, temos adotado critérios, os quais não prejudiquem a saúde, não parem a economia e até mesmo órgãos essenciais. 

A nossa visão geral é de que não haja aglomerações e haja proteções, como por exemplo as cabines que hoje estão sendo montadas nos caixas das lojas, das farmácias e de órgãos que não param. Em relação a pontos de prevenção à saúde do trabalhador, que hoje estão sendo criados em função da pandemia e já deveriam estar em seus locais há muito tempo. Nós negociamos sempre nos meios para que não haja aglomerações nesse sentido, que haja o respeito ao trabalhador, ao trabalhador comerciário, principalmente. 

Também, vimos a questão do transporte coletivo para que não haja acúmulo nesse sentido, e negociamos, por exemplo, para que os horários fossem diferenciados, que haja diferenciação de tais comércios abrirem em horários diferenciados, como aconteceu como as lojas de materiais de construção, o que não obtivemos êxito. 

Sobre o transporte coletivo, nós temos cobrado forte, porque as empresas do consórcio não estão realizando a higienização que deveriam fazer como está previsto nos decretos municipais, principalmente no primeiro decreto. Algo que é grave, para nós, é a situação da falta de cuidados no transporte coletivo. A higienização que eles fazem é totalmente precária e inadequada, que pode ser um grande fator gerador do vírus. Além da população usar máscara, também precisa usar um transporte limpo e saudável, e não o que nós temos visto hoje no transporte coletivo de Pelotas.

O aumento no número de casos é consequência das medidas que vêm sendo tomadas pela Prefeitura? Como o CMS analisa esse aumento expressivo nas últimas semanas e a ocupação dos leitos? Pelotas está perto de um colapso do sistema de saúde, já que atende também municípios da região?

O aumento dos casos positivos, na realidade, têm vários fatores, não apenas as medidas que a Paula tem cedido à questão dos comerciantes. Na realidade, o que nós apontávamos junto aos epidemiologistas, é que a partir da entrada do frio, da diminuição da temperatura, isso iria ocorrer, como ocorre todos os anos com as síndromes gripais. Esse, talvez, seja o principal fator que elevou o número de casos positivos. Mas o número de casos positivos no início não era real e nem próximo do que se tinha, porque Pelotas não fazia o número de testes que vem fazendo hoje, porque o estado do Rio Grande do Sul e o Ministério da Saúde não enviaram testes e nem o município tinha comprado testes para fazer, tanto no serviço especializado quanto nas Unidades de Saúde. O número, até chegar aos 50 casos positivos, era um número muito fictício. Talvez, de cada 4 ou 5 pessoas uma era testada. Na realidade, só faziam teste as pessoas que já estavam internadas. Nas pessoas suspeitas que chegavam à UPA e outros serviços, eles não faziam testes, nem teste rápido, nem o PCR. Hoje, uma grande quantidade de pessoas faz o teste rápido e depois de fazer o teste rápido faz o PCR, que é o que vai para a estatística. Essa é uma situação que levou a ter aumentado também número de casos. Isso começou a ocorrer antes de baixar a temperatura.

Sobre a questão dos hospitais, um problema grave e grande que nós vimos foi o governo do estado tê-los aberto para pessoas de municípios que não sejam nem da nossa região. Por exemplo, Rio Grande tem um grande número de pescadores. Alguns casos até de Santa Catarina. Tem vários internados, ou tinha, na UTI de Rio Grande, tanto da FURG quanto da Santa Casa. Pescadores de um barco de Santa Catarina que atracou em Rio Grande pela situação de gravidade dessas pessoas que trabalham no barco e que acabaram sendo internadas em Rio Grande. Em Pelotas, nós tínhamos, e não sei qual exatamente a razão e o fundamento, uma pessoa de Novo Hamburgo internada aqui. Hoje, se vocês observarem 50% das pessoas não são de Pelotas, são de outros municípios. Isso tem dois lados ruins: primeiro, que o paciente vem aqui e ocupa o nosso leito, e, segundo, que os familiares dessas pessoas enfermas acabam circulando também em Pelotas. Seja na casa de familiares, seja em hotéis, elas acabam circulando e tendo contato com a pessoa contaminada, e isso é preocupante.

Outro problema crítico que nós temos também é a falta do governo do estado de se preocupar com outros hospitais da região, como é o caso de Canguçu. O hospital de Canguçu tem condições e equipamentos para abrir dez leitos de UTI, mas no momento não foram credenciados, não foram habilitados. Então, Canguçu também teria condições não só de absorver os pacientes de Canguçu, mas também dos municípios que ficam próximos. Assim como o hospital de Jaguarão e de São Lourenço tem condições de atender os casos mais leves de pessoas que precisam de internação hospitalar ou de isolamento social. E isso é preocupante. 

Preocupante para nós, também, é o caso da situação da Santa Casa de Pelotas. Há problemas na direção da Santa Casa de Pelotas, que não estabeleceu ajustes e acertos com a administração municipal, por algumas razões, as quais eu acho descabidas e não concordo com elas, porque nós deveríamos concentrar as pessoas com tratamento de Covid-19, sejam elas SUS ou particulares, em um espaço físico menor. Hoje, nós temos as pessoas sendo tratadas no Hospital Escola, mas que ficam no espaço da Santa Casa – foram leitos negociados entre as partes. Então, as pessoas tratadas pelo Hospital Escola ficam no espaço da Santa Casa. A proposta era de que a Santa Casa atendesse os casos privados, os pacientes dos convênios, o que acabou não acontecendo porque a Santa Casa queria que fossem credenciados novos leitos de UTI, mas o governo do estado e o governo federal não cederam a essa pressão. Então, a Santa Casa se recusou a internar pacientes de convênio particular dentro do espaço físico. Com isso, a alternativa foi buscar a Beneficência Portuguesa. 

Nós temos pacientes em um prédio distante, que é a Beneficência Portuguesa, para atender casos SUS e particulares. Dentro da negociação teve, também, junto a isso, a insuficiência e o fechamento do hospital de campanha. Então, é um acordo que ainda não está totalmente concretizado a nível estadual e federal…existe o ajuste e o acerto entre município e o hospital, que não está 100% regularizado junto ao estado e à união federal, mas está seguindo todos os protocolos e os trâmites que são realizados com outros serviços. Então, vai ficar uma parte dos pacientes em um espaço da cidade e o outro grupo de pacientes em outros espaço mais central. O ideal é que tudo ficasse naquele conjunto hospitalar, que é um espaço praticamente único: de um lado da rua é o Hospital Escola e do outro é a Santa Casa. O ideal, para nós e para os epidemiologistas da área, é que tudo se concentrasse ali, mas, infelizmente, a posição da direção da Santa Casa foi contrária a isso e isso nos preocupa, e bastante.

Fonte: Assessoria ADUFPel

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