100 anos de Florestan Fernandes: seu legado para a educação e para o Brasil

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Em 22 de julho de 1920 nascia, em São Paulo (SP), Florestan Fernandes. Filho único de mãe solteira, viveu as dificuldades da vida desde muito cedo. Estudou até a 3ª série e logo teve que trabalhar. Foi engraxate, faxineiro, alfaiate e garçom. 


Só retomou os estudos anos depois, apoiado por alguns clientes que atendia no Bar Bidu, no centro paulistano. Completou o curso de madureza, modalidade para jovens e adultos. Em 1941, com 21 anos de idade, ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). 


Da famosa Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), logo virou professor. Primeiro, assistente de Fernando Azevedo. Depois, já mestre e doutor pela Escola Livre de Sociologia e Política, tornou-se professor titular substituto na USP. 


Em 1964, mesmo ano em que ganhou o prêmio Jabuti por seu livro “Corpo e alma do Brasil”, foi efetivado na cátedra de Sociologia, da qual seria “aposentado compulsoriamente” pela ditadura empresarial-militar em 1969. Até voltar ao Brasil para dar aulas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) paulista, foi professor em Columbia, Toronto e Yale. 


No regresso do exílio, publicou “A revolução burguesa no Brasil” e se aproximou de sindicalistas, sem-terras e estudantes que organizavam a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi deputado federal constituinte e depois ainda cumpriu mais um mandato como parlamentar, até 1995. Florestan Fernandes faleceu em 10 de agosto de 1995 após um transplante de fígado mal sucedido. 


Ouça aqui o Viração especial do centenário de Florestan Fernandes.


Contribuição para a educação

Desde o início de sua carreira como professor, Florestan Fernandes sempre foi atuante em disputas políticas sobre o rumo da educação brasileira. Defensor da gratuidade e da laicidade do ensino público, o sociólogo teve papel importante na Campanha em Defesa da Escola Pública que deu origem à primeira Lei de Diretrizes de Base da Educação (LDB), na década de 1950.


“O legado dele é muito grande, porque foi formulador e também sujeito ativo nas lutas em defesa da educação no Brasil, desde os anos 50. Naquele momento, o sistema educacional não era universalizado. O analfabetismo era mais brutal do que hoje. A Campanha Em Defesa da Escola Pública foi plural, eclética e buscava enfrentar problemas de atendimento, acesso, etc”, afirma Lalo Watanabe Minto, docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 


Naquela época, Florestan também combateu as interferências privadas na educação pública, notadamente da igreja, defendendo a laicidade do ensino. Hoje, tal pauta segue importante, não apenas em relação à interferência religiosa, mas também de grandes grupos empresariais.


“Eu acho que o Florestan tem uma contribuição excelente em sua teoria sobre o Brasil, a nossa formação e o papel que a educação tem nessa formação histórica. Tanto ao formular uma teoria sobre a educação brasileira quanto ao adequá-las às condições específicas da nossa formação história”, avalia Lalo Minto.


O docente da Unicamp cita, ainda, uma bandeira sempre levantada por Florestan Fernandes para o financiamento da educação, que é compartilhada pelo ANDES-SN e pelo movimento docente até os dias atuais. A defesa de recursos públicos para a escola pública.


“É importante se apropriar da obra do Florestan. Os últimos textos dele são de militância, e é interessante fazer essa leitura à luz das contribuições teóricas de sua obra desde os anos 50. Quem tiver fôlego e energia para esse estudo, tem condições para entender a realidade da educação brasileira de forma mais ampla”, conclui Lalo Minto. 


As lutas do Florestan deputado

Como deputado federal, Florestan Fernandes se colocou como um dos maiores defensores da educação pública e esteve em constante articulação com o movimento docente durante a construção da Constituição Federal de 1988. É o que conta Luiz Henrique Schuch, docente aposentado da UFPel, membro do Conselho de Representantes da ADUFPel, ex-presidente do ANDES-SN e da ADUFPel. 


“Eu era militante do movimento docente que participava muito dos debates na temáticas da educação, da comunicação e da saúde durante a Constituinte. Na subcomissão de educação houve um impasse, quando a Rede Globo e a bancada evangélica derrubaram o relatório para tentar emplacar uma emenda que eles próprios tinham feito. Isso gerou um conflito muito grande, e o Florestan era nossa ponta de lança no debate. Algum resultado teve, porque foi a única subcomissão que não produziu relatório naquele período, muito pela lucidez política e conceitual do Florestan, que entendeu que não era possível transigir e era necessário manter a radicalidade, já que havia uma imposição desse grupo”, comenta o docente.


Segundo Luiz Henrique Schuch, Florestan Fernandes teve sua militância pautada por uma série de princípios que, ainda hoje, são caros ao movimento docente. Desde os anos 50, até a Constituinte, o sociólogo defendeu, entre outros pontos, a universalização da alfabetização e da escola pública; a derrubada da cátedra vitalícia e a instituição da carreira docente; a democratização das universidades e a paridade nos espaços de decisão; e a indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão. As mesmas bandeiras, levantadas há 70 anos, seguem importantes nas disputas políticas do Brasil de 2020. 


“Essa urgência a qual nós temos sido chamados em relação à pandemia, nos remete à inspiração de como o Florestan trabalhou o papel da sociologia, da educação, da ciência num país como o nosso. Aproveitar o tempo, em um momento desses, não pode significar uma espécie de fuga do tempo, muito mais afeto ao mundo capitalista onde tempo é dinheiro. Aproveitar o tempo deve ser feito no que é essencial, na inspiração de Florestan. O momento é de fortalecer a humanidade, a justiça, a equidade”, conclui Schuch. 

Fonte: Assessoria ADUFPel com imagens de ADUFPel e Outras Palavras

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