Afeto e solidão trans para além da pandemia (por Nati Castro Fernandes)

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“É urgente falarmos sobre a nossa existência, construindo diálogos, sermos representades nos espaços, na mídia, nas nossas próprias famílias, na política e na voz” – Foto: Ennio Brauns/Jornalistas Livres

Solidão se agrava muito mais quando se faz um traçado de gênero, sexualidade, raça, classe, entre outras características

A solidão é resultado da carência de afetividade, atenção, amor e empatia, afetando de maneira desafiadora nossa saúde física e emocional. Muitas vezes, é preciso estar ao lado de outre(s)** para compartilhar as nossas situações cotidianas, sentimentos e pensamentos, sejam eles bons, ruins ou inesperados, e, desta forma, preencher os “vazios” que há dentro de nós para nos sentirmos mais plenes, prestatives e significatives para com o mundo.

Absolutamente ninguém está desimpedide de possuir este sentimento durante a vida. Dependendo da maneira e momento em que ela é manejada, pode servir como uma ferramenta de aprendizagem e evolução pessoal. Mesmo assim, suas cicatrizes podem ser profundas e afetar de um modo ainda mais cruel determinadas minorias sociais, mas isso não diminui e nem exclui este sentimento que as demais pessoas fora desses grupos também possuem.

Hoje, abordaremos especificamente sobre a solidão das pessoas trans (homens, mulheres e não-bináries(1)), e sim, ela se agrava muito mais quando se faz um traçado de gênero, sexualidade, raça, classe, idade, características físicas, etnia, religião, nacionalidade, etc. Atitudes preconceituosas e classicistas, infelizmente estão presentes no próprio meio LGBTQIA+ e na sociedade como um todo.

Para muitas pessoas, nós trans, travestis, transsexuais, não-bináries e demais pessoas que fogem das regras impostas pela lógica “macho” e “fêmea”, ou seja, a lógica binária de gênero, somos considerades seres desprezíveis, imundes, mundanes, psicopatas, pervertides e pessoas com alto risco para o bem-estar social. O preconceito e a falta de entendimento e reflexão sobre temas relacionados à identidade de gênero, à sexualidade e à diversidade, impostos pela religião e “moralidade”, criam uma barreira que divide pessoas trans e pessoas cisgênero (2). Me faço os seguintes questionamentos: Quem nos ama? Há alguém? Quem cuida de nós? Quem se importa com o nosso sofrimento? Quem está disposte a nos ajudar a curar esse mal da solidão, do esquecimento e do abandono? Podem até acreditar que estou exagerando, mas uma dor somente é sentida quando você convive diariamente com ela: a solidão de não ser amade, simplesmente por ser trans.

A objetificação, a hiperssexualização e a fetichização pelos corpos trans, levam-nos a acreditar que somos apenas um produto de manuseio e descarte. Isto é um fato, é cotidiano e recorrente, pois, quem está disponível para oferecer-nos afetividade e amor genuínos? Inúmeras vezes somos tratades como “máquinas” de fazer sexo e indivíduos submisses para satisfazer, primeiramente, o desejo des outres. Isso é machismo, isso é patriarcado e tóxico! Na grande maioria das vezes, essas “trocas” afetivas não tem sido saudáveis e sem apreço à igualdade de corpos e sujeites. Sem falar que a mídia, como a televisão, o cinema e os demais meios de nossa representação, sempre tem tratado pessoas trans como cômicas, hilárias, caricatas, ridículas, abertas para o deboche, produtorxs de risadas e esquisitice.

É preciso constatar que os corpos trans femininos são “consumidos” principalmente por homens, cisgêneros, casados, que possuem companheiras em relacionamentos tidos como “fechados” etc, e isso constantemente acontece às escondidas, pois somos sempre as amantes e quase nunca as “amadas”, as preteridas, mas nunca as preferidas e escolhidas.

Com o trabalho de prostituição que muites de nós (principalmente mulheres trans e travestis) acaba desempenhando para sobreviver à falta de oportunidade, empregabilidade, “formação” acadêmica, profissionalização e à exclusão de modo geral, somos taxades de prostitutes, putes, piranhas, raparigues, vadies e garotes de programa ambulantes, e não como seres humanos, que também possuem sentimentos e afeições, e que não estão disponíveis para sexo 24 horas nos 7 dias da semana. Violência essa, muito comum nos nossos aplicativos de busca de parceires e demais redes sociais da internet. Aliás, é pelos meios digitais que os “homens” assumem sua masculinidade frágil e falta de coragem de amar uma pessoa trans em público, sendo de maneira virtual o início dessa objetificação.

As violências, marginalizações e violações que sofremos dia após dia nos faz perder energia, confiança, nos sentirmos solitáries, sozinhes, descartáveis e inúteis. E como mudar isso? Como criar laços de afetividade com os nossos, nossas e nosses? Que amor verdadeiro estamos recebendo?

A passabilidade (3) é um fator decisivo para uma pessoa cisgênera assumir uma relação de amor público com a gente. Quanto mais nos parecermos como homens ou mulheres, quanto mais bináries e padrões, dentro da lógica de estética capitalista e consumista, mais “aceitáveis” somos para a sociedade.

Transformar em solitude (4) a nossa dor, requer mais empatia das pessoas com a gente, reinventar o nosso próprio amor, sermos equiparades no olhar, no cuidado e no zelo. Por isso, é tão importante pessoas <trans> buscarem redes de apoio e serem protegides pelo Estado, escola, serviços de saúde e psicossociais, mercado de trabalho etc, com emancipação dos nossos direitos. É urgente falarmos sobre a nossa existência, construindo diálogos, sermos representades nos espaços, na mídia, nas nossas próprias famílias, na política e na voz; promover uma educação acolhedora que ensine amar e respeitar as dissidências (5), as pessoas trans; sermos amades e vistes como seres humanos de verdade.

(1) Gênero não-binárie: aquelx que não se conforma com a imposição dos gêneros binários (masculino, feminino, trans masculino, trans feminino) sobre os corpos.

(2) Cisgêneridade: é a normatização imposta pelas pessoas cisgêneras, ou seja, as pessoas cujo gênero é o mesmo que o designado no seu nascimento.

(3) Passabilidade: demonstrar-se, apresentar-se, dar a entender que fisicamente e esteticamente não se pareça uma pessoa trans, como alguém que fez uma “transição” de gênero.

(4) Solitude: fazer da solidão um momento de crescimento pessoal, uma período de descobertas, onde se busca se sentir bem sozinhe.

(5) Dissidências: aquelxs que divergem da “normalidade”, da conduta social.

* Nati Castro Fernandes, 23 anos, Travesti, nordestina, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Maria, UFSM, militante do Levante Popular da Juventude do Rio Grande do Sul.

** Este texto foi escrito numa tentativa de maneira “inclusiva”, ou seja, as palavras que possuem gênero definido de acordo com a Norma Padrão da Língua Portuguesa, as letras “a” e “o” foram substituídas pela letra “e” ou “x”. Exemplo: outro = outre.

Fonte: Brasil de Fato RS

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