O papel da esquerda pelotense na eleição de 2020 (por Daniel Lemos)

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São Gabriel é uma pequena cidade da zona da campanha gaúcha conhecida como a “Terra do Marechais”, em razão da identificação da cidade com as armas, com o exército e, principalmente, por ser o berço de alguns importantes marechais brasileiros, entre eles o presidente Hermes da Fonseca. Jaguarão, cidade da fronteira entre Brasil e Uruguai é a “Cidade Herórica”. Tio Grande é a “Noiva do Mar”, enquanto São Lourenço é a “Pérola da Lagoa”.

Pelotas, por sua vez, é a cidade do doce, a “Princesa do Sul”. Talvez, no entanto, ela não faça justiça ao apelido. Afinal foi uma cidade muito salgada, se ainda não é. Cuja glória que faz sua fama foi construída sobre o sangue do trabalhador negro escravizado por mais de 100 anos. Mais merecido seria um apelido como “Cidade dos Coronéis”, ou algo do tipo.

A Princesa do Sul (ou a cidade dos Coronéis como preferir) foi fundada em 12 de julho de 1812, segundo a historiografia oficial, inicialmente com o título de freguesia, apenas em 1835 seria promovida a município. Desde então a cidade foi governada pelos “homens bons”, pelos charqueadores. Alguns de seus nomes abundaram nas galerias do presente: Leopoldo Antunes Maciel, Antonio Francisco dos Santos Abreu, Annibal Antunes Maciel, Bernardo José de Souza, Arthur Antunes Maciel, Antonio Soares da Silva.

Com o advento da República os bacharéis, os médicos e os engenheiros, todos da elite charqueadora e pecuarista ligados ao Partido Republicano Riograndense deram uma cara mais civilizada e elegante ao paço municipal. Antero Vitoriano Leivas, José Barbosa Gonçalves, Cypriano Corrêa Barcelos, Pedro Luis Osório, Augusto Simões Lopes, João Py Crespo batizaram nomes de ruas, avenidas, praças, bairros e escolas. Isso tudo acontecendo na sombra dos dois grandes coronéis da cidade, os riquíssimos, ou podre de riquíssimos, Cel. Pedro Luiz da Rocha Osório (não confundir com o Pedro Osório intendente e da tradicional família pelotense) e o Cel. Alberto Rosa, banqueiros do Banco Pelotense e pioneiros da orizicultura da cidade.

O mesmo destino dos interventores da Era Vargas: Joaquim Augusto Assumpção Jr., Silvio Barbedo, José Júlio Albuquerque Barros, Silvio da Cunha Echenique, Procópio Duval Gomes de Freitas. Os “donos do poder” foram sempre os mesmos apesar das mudanças institucionais. Na Monarquia ou na República, na República Velha ou no Estado Novo, Pelotas continuou sendo a Princesa dos Coronéis.

Porém, nem a doce Atenas Riograndense continuou sendo a mesma depois da Segunda Guerra Mundial. Coma democracia burguesa na moda e a expulsão de Getúlio do poder uma brecha momentânea se abriu. Na primeira eleição pós ditadura Vargas, em 1946 o pelotense elegeu mais um advogado e professor da Faculdade de Direito – da Casa do Bruno de Mendonça Lima – para a prefeitura: Joaquim Duval. Mas, a novidade veio na segunda eleição do período de democratização: o petebista Dr. Mário Meneghetti, médico ligado a viação férrea e à Faculdade de Medicina Leigafoi escolhido prefeito. Depois, em 1958, outro petebista foi eleito: Dr. João Carlos Gastal.

Em 146 anos de história dois governantes destoaram da tradição pelotense de ser governada por coronéis, ou seus representantes. É verdade que o PTB não era nem de longe um partido de esquerda. A Ciência Política sempre o classificou como de direita. Porém, o projeto trabalhista possuía um conteúdo popular, essa foi a novidade. E Pelotas acompanhou o que acontecia no Estado, que em 1950 elegeu Ernesto Dornelles e em 1958, Leonel Brizola, ambos do PTB, para o governo do estado.

De lá para cá, de 1963 – quando acabou o mandato de João Carlos Gastal – até 2016 – quando ocorreu a eleição mais recente – é possível contar nos dedos de uma mão as vezes em que Pelotas elegeu um prefeito, que não fosse um representante orgânico da burguesia local. Isto quase sempre acompanhou uma tendência nacional. Em 1976, Irajá Rodrigues do MDB foi eleito num contexto de desgaste dos governos militares e num momento em que a oposição estava virando o jogo. O mesmo aconteceu em 1982, quando o MDB elegeu Bernardo de Souza, e no nível estadual Pedro Simon quase se saiu vitorioso sobre Jair Soares, do PDS, o que aconteceria na eleição seguinte em 1986..

Em 1988, José Anselmo Rodrigues do PDT, o Governaço, surpreendeu Adolfo Fetter Jr. e Irajá Rodrigues (já domesticado pela burguesia da cidade, ele próprio empresário de sucesso) e venceu a disputa eleitoral. Representante de Leonel Brizola, o médico do bairro Fragata foi eleito com um programa popular e, por um partido realmente de esquerda. Quando retornaram à prefeitura de Pelotas, em 1992, Irajá Rodrigues e, em 1996, Anselmo Rodrigues já estavam aliados à burguesia pelotense, portanto, não representavam o campo popular e a esquerda.

Em 2000 foi a última eleição que Pelotas elegeu alguém de esquerda para a prefeitura. Fernando Marroni, do PT, foi beneficiado pela ascensão do PT no país inteiro, e também no Rio Grande do Sul, que havia escolhido o bancário e sindicalista Olívio Dutra para o governo do estado em 1998. Então, desde que terminou o mandato petista em 2004, a elite local retomou o poder e não largou mais. Sendo que, na eleição de 2016 com a atual prefeita Paula Mascarenhas, do PSDB, obteve a vitória mais acachapante de toda a história da cidade, depois da redemocratização.

Nesse período pré-eleitoral, os partidos de esquerda em Pelotas discutem, avaliam, articulam suas estratégias para a competição que se aproxima. Os representantes do PT, do PDT, do PSOL, do PCdoB e até do PSB – que foi afastado da base do governo pela própria prefeita por infidelidade– tentam construir uma “Frente Ampla” ou até mesmo uma “Frente de Esquerda”. Contudo, parece que tais expressões são o que Ernesto Laclau denominou de significante vazio, onde cada um entende o que quer delas.

Diante de tudo o que a história da política de Pelotas tem a ensinar, parece que o mais importante a fazer é buscar uma estratégia de resistência ao poder da elite da cidade. Melhor do que alimentar uma falsa ilusão, ou expectativa de vitória eleitoral, tem mais sentido acumular força e buscar posições que possam dificultar as iniciativas dos governos de direita. Aumentar a representatividade na Câmara Municipal parece ser a melhor tática. Para isso os partidos devem qualificar e ampliar suas chapas proporcionais recrutando e formando seus quadros. Investir todas as energias e recursos na ampliação do número de vereadores. Buscando apoio nos bairros, nos sindicatos, na juventude, ou seja, nos lugares que sempre forneceram seus militantes e dirigentes. Essa é a verdadeira Frente Ampla que pode ser articulada. E os partidos de esquerda devem entender que é melhor bater nos representantes da burguesia do que ficarem brigando entre si. Ou, então Pelotas será sempre a cidade dos coronéis.

*Daniel Lemos, doutorando em História/UFPel e membro do Conselho Editorial da revista Crítica Marxista. Foi do DCE-UFPel e milita no CPERS-Sindicato.

3 Respostas

  1. Vera Abuchaim

    Daniel, algumas das tuas informações estão incorretas. O cel. Pedro Luiz da rocha Osorio nunca foi banqueiro. Foi charqueador e orizicultor, e era abolicionista NUNCA TEVE NENHUM ESCRAVO. O Cel Alberto Rosa foi banqueiro, mas nunca foi orizicultor. Foi pecuarista e charqueador. Quanto ao restante do artigo, não posso dizer nada, pois para isso seria necessário uma pesquisa

  2. Daniel Lemos

    Grato pela leitura do meu artigo e pelo comentário Profa. Vera, inclusive tenho o seu livro a respeito do Cel. Pedro Osório.
    Relendo o texto não encontrei afirmação minha dizendo que o Cel. Pedro Osório tenha tido escravos, embora doe estranho um charqueador sem escravos… Mas enfim, a passagem a respeito dos dois coronéis foi essa:

    ” Isso tudo acontecendo na sombra dos dois grandes coronéis da cidade, os riquíssimos, ou podre de riquíssimos, Cel. Pedro Luiz da Rocha Osório (não confundir com o Pedro Osório intendente e da tradicional família pelotense) e o Cel. Alberto Rosa, banqueiros do Banco Pelotense e pioneiros da orizicultura da cidade.”

    Apesar desses dois equívocos, que a senhora apontou, me parece que o argumento central do texto permanece.
    Um abraço
    Daniel Lemos

  3. Daniel Lemos

    Professora Vera, na obra “O Banco Pelotense & o sistema financeiro regional”, de Eugênio Lagemann, publicado pela editora Mercado Aberto em 1985, consta que a ‘Pedro Osório & Cia.’ do seu bisavô além de estar ligado à fundação do banco (página 95), possuía 100 ações do mesmo.

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