Presidenta do CRP-RS destaca importância da psicologia durante a pandemia

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Ana também falou da importância da Luta Antimanicomial, que teve seu dia comemorado na segunda-feira (18) – Divulgação CRP-RS

Há mais de dois meses, a pandemia do novo coronavírus chegou no Brasil, alterando a rotina de milhões de pessoas. De uma hora para outra, planos foram interrompidos e a necessidade de isolamento social se impôs como a única forma de conter um avanço ainda mais rápido da doença. Além de todos os cuidados e preocupações com a transmissão da covid-19, essa situação trouxe consigo sentimentos como insegurança, estresse, apatia, raiva, nostalgia, insônia, entre outros, fazendo soar o alarme da saúde mental das pessoas.

“Quem não estiver mal com essa situação deveria se preocupar. Estar mal, estar triste e incomodado são sentimentos absolutamente esperáveis em uma situação como essa”, afirma a presidenta do Conselho Regional de Psicologia do RS (CRP-RS), Ana Luiza de Souza Castro, ressaltando que a pandemia atinge cada um de uma forma diferente. “Tem pessoas que não têm casa, que não têm como cumprir normas de segurança e efetivamente estão perdendo seus empregos”, aponta.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, ela destaca que é muito importante que os familiares fiquem atentos em diferenciar o que seria esse “sofrimento público” dos casos de sofrimento mental em que a pessoa precisa procurar um atendimento especializado. “Temos dados preocupantes do aumento do sofrimento mental das pessoas, dos suicídios e tentativas de suicídio”, afirma. Ana Luiza enfatizou também a necessidade de se falar sobre esse tema delicado, que “tem que ser tratado, não o assunto pessoal, na pessoalidade, mas como uma tragédia pública”.

A psicóloga afirma a importância do trabalho da psicologia nesse momento. “Somos 24 conselhos de psicologia no país e mais o Conselho Federal, desde o início da pandemia temos trabalhado incessantemente produzindo protocolos de atendimento, e também normas de segurança”. Sobre a norma que flexibilizou o atendimento online, ela destaca “o fato de ser on-line não significa que ele não tenha que ser feito com privacidade”, sendo melhor que exista essa opção para que as pessoas não fiquem sem o atendimento.

Conforme Ana, alguns dos problemas vistos nessa pandemia que geram transtornos são aumento do uso de drogas lícitas e ilícitas, problemas de relacionamento com o convívio 24 horas por dia, aumento da violência contra a mulher e estresse com o trabalho de quem passou a realizar atividades em casa. Entre as dicas para lidar com a situação, ela recomenda tentar manter uma rotina, diminuir o acesso à informação e escolher melhor as fontes, além de estabelecer o contato com família e amigos através dos meios eletrônicos.

Na entrevista, a presidenta do CRP-RS comentou ainda sobre a Luta Antimanicomial, que teve seu dia comemorado na segunda-feira (18). “Ela revolucionou quando se discutiu as formas sub-humanas e de isolamento social de prisão para as pessoas acometidas de sofrimento mental”, afirma. Mas chamou a atenção para os retrocessos que esse movimento vem sofrendo com o atual governo, com tentativas contrárias à reforma psiquiátrica, que querem reabilitar hospícios. “Há projetos de lei que hoje estão em andamento no Congresso, por exemplo, que estabelecem uma internação compulsória para usuários de drogas, o que é algo muito preocupante. Isso seria hoje a substituição ao manicômio, como se ele precisasse ainda existir não mais para os ‘loucos’, para os portadores de sofrimento, mas para os usuários de drogas lícitas e ilícitas”.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato RS – Gostaríamos que nos falasse da contribuição que a psicologia pode dar nesse momento diante da covid-19 e do isolamento social.

Ana Luiza de Souza Castro –A psicologia como uma profissão que se ocupa das pessoas, evidentemente ela tem muito a dizer, a contribuir e tem sido assim. Tenta entender esse fenômeno que está acontecendo e nos colocando em uma situação tão difícil para a saúde mental e para manter a saúde mental das pessoas. Evidentemente a pandemia não atinge a todos e a todas da mesma forma. Tem pessoas que não têm casa, que não têm como cumprir normas de segurança e efetivamente estão perdendo seus empregos.

É importante dizer que a situação do país é gravíssima porque tivemos, há poucos anos, mudanças na legislação de forma muito unilateral que cortaram gastos para o Sistema Único de Saúde, o SUS. E isso estamos vivendo agora que é o desmonte das políticas públicas e da Saúde pública no país.

Do ponto de vista da subjetividade, entendo que sim, que o mundo não vai ser como era e que a vida não vai voltar ao normal. Isso tem sido um grande desafio que evidentemente causa ansiedade, sofrimento e angústia. Mas também seria bom questionarmos que normalidade se está falando, que normalidade era essa.

BdFRS – Qual a situação dos serviços de saúde mental do SUS no Rio Grande do Sul com a pandemia? Os atendimentos seguem ocorrendo?

Ana Luiza – Temos dados preocupantes do aumento do sofrimento mental das pessoas, dos suicídios e tentativas de suicídio. Esse é um assunto bastante delicado, há um protocolo que fala que tornar público situações como essas poderiam ser um gatilho para que as pessoas tivessem a mesma atitude. Eu pessoalmente acho que isso tem que ser tratado, não o assunto pessoal, na pessoalidade, mas como uma tragédia pública. As pessoas estão em sofrimento, várias tentaram o suicídio, algumas infelizmente conseguiram.

Não temos notícia de serviços fechados. Somos 24 conselhos de psicologia no país e mais o Conselho Federal, desde o início da pandemia temos trabalhado incessantemente produzindo protocolos de atendimento, e também normas de segurança. E temos uma grande área, que é a área da Saúde e da Assistência, que são trabalhos essenciais e os psicólogos continuam na frente desses trabalhos.

Nesse momento aqui no RS é garantir que isso seja feito de forma segura, com todos os EPIs. Lançamos a pouco um trabalho específico para que as psicólogas e os psicólogos nos respondam sobre as condições de trabalho, porque temos também a certeza de que psicólogo exerce um trabalho essencial e ele não pode ficar em casa, não pode atender de casa.

BdFRS – Estão ocorrendo atendimentos online? É uma alternativa tão efetiva quanto o acompanhamento pessoal? Quais os desafios?

Ana Luiza – O Conselho Federal deu uma flexibilidade na normativa do atendimento on-line que está sendo feito por grande parte da categoria. O fato de ser on-line não significa que ele não tenha que ser feito com privacidade, com as condições éticas que teriam em um atendimento presencial. Mas com certeza ele garante, nesse momento, que a pessoa não fique sem o atendimento e que a psicóloga ou psicólogo cumpram a sua função, a sua responsabilidade social, que é fazer também o vírus não circular e ficar dentro da sua casa.

Nós entendemos que a psicologia vai ter que ser ressignificada, a vida vai ter que ser ressignificada. E já está nos obrigando a ter novas formas de trabalhar, de funcionar, é importante que tenhamos isso em mente porque a pandemia atinge a psicologia em todas as suas áreas de atendimento, seja na clínica, na saúde, na justiça, seja na psicologia do trânsito. Não há área da psicologia que a pandemia não atinja e de uma forma direta.

BdFRS – O isolamento que já completa dois meses e as incertezas frente à pandemia geram ansiedade? Como lidar com essa ansiedade?

Ana Luiza – Quem não estiver mal com essa situação deveria se preocupar. Estar mal, estar triste e incomodado são sentimentos absolutamente esperáveis em uma situação como essa, que é uma total incerteza sobre o dia de amanhã. Nós temos ainda o agravamento de morar no país chamado Brasil, em que há uma total desorganização dos nossos governantes nacionais do que seja o que estamos atravessando.

Vivemos com o caos da covid-19 perto de nós. Então sabemos que as pessoas estão morrendo, se contaminando e tem uma informação oficial que fala de uma “gripezinha” de que pessoas vão morrer, de que isso é natural e que essa “gripezinha” afetaria só determinadas pessoas que já tinham problemas. Como se a morte fosse algo natural, banal. Esse sentimento de incerteza, de insegurança, se ele não nos causasse sofrimento seria de estranhar.

Agora, muito importante fazer um diferencial do que seria esse sofrimento público, que nos acomete, do que seja um caso de sofrimento mental do qual a pessoa precisa procurar um atendimento. É muito importante familiares estarem atentos aos comportamentos das outras pessoas porque há uma linha tênue do que hoje é um sofrimento social e do que é um sofrimento mais grave, em que haveria necessidade de uma internação de serviço mental.

BdFRS – A pandemia, o isolamento e os problemas decorrentes da situação podem levar à depressão? Como contorná-lo? Que outros sentimentos podem surgir nesse contexto?

Ana Luiza – A pandemia e o isolamento social podem e estão trazendo problemas decorrentes. Tristeza, depressão, insônia, aumento abusivo de drogas lícitas como o álcool, são sintomas da crise que acabam tendo um reflexo emocional de como as pessoas estão fazendo para sobreviver a tudo isso. A Organização Mundial da Saúde deu algumas indicações para as pessoas tentarem manter o mínimo de rotina, manter momentos de descanso, o que tem sido uma grande dificuldade, pois o trabalho invadiu a casa das pessoas.

Não se tem mais um horário de descanso do meio dia, ou almoço, que se vai conseguir fazer lá pelas quatro da tarde, ou se vai comprometer o final de semana. Isso também é um efeito que deve ser estudado, o que isso está fazendo com a vida das pessoas. Essa virtualidade que é a nossa única possibilidade de hoje de manter as relações, de continuar trabalhando, qual o efeito disso nas nossas vidas.

Sem sombra de dúvida, o que a gente enfrenta no Brasil diante dessa pandemia é algo apavorante, estamos no terceiro ministro da Saúde, informações contraditórias, linhas contraditórias, uma insegurança. Um exemplo disso é a condição feminina, em que a mulher está tendo que se ocupar com todos os trabalhos, seu trabalho profissional, com os filhos, com a casa, e manter a tranquilidade.

Uma fala da minha parte, uma fala muito “classe média”, é dizer que bom, faça seu esporte, cuide da sua alimentação, tente fazer coisas prazerosas. Sim, tudo isso são conselhos importantes. Mas estamos falando de uma realidade muito complicada em que a violência doméstica aumentou de forma absurda, que os maus tratos às crianças também aumentaram. A mulher está mais exposta durante a pandemia. São as várias jornadas de trabalho, emprego, filhos, trabalho doméstico. A pandemia aguçou o mundo machista, racista e desigual em que vivemos.

A necessidade de estar em casa expõe uma realidade preocupante. Em que condições? Quais relações já abusivas já sé estabeleciam? Conviver 24 horas com outras pessoas dentro de um mesmo local é uma realidade nova e, obviamente, causadora de conflito, angústia, sofrimento.

É muito difícil se manter sadio, sadia, frente a tudo isso. Talvez uma outra possibilidade, uma outra indicação seria diminuir um pouco o acesso à informação. Escolher as formas de informação mais fidedigna também pode ser uma dica para manter razoavelmente a saúde emocional em condições. Outra é manter contatos telefônicos, através da internet, ler, manter uma rotina. E mais que tudo, pedir ajuda.

BdFRS – 18 de maio foi o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Quais os avanços, retrocessos e desafios na política de saúde mental?

Ana Luiza – A Luta Antimanicomial é um movimento que reuniu trabalhadores da Saúde, sociedade civil, familiares de usuários e usuários. Na realidade, mudou totalmente a forma de se ver a loucura e de se tratar a loucura no Brasil. Ela revolucionou quando se discutiu as formas sub-humanas e de isolamento social de prisão para as pessoas acometidas de sofrimento mental.

Evidentemente que, com todo o retrocesso que temos tido no país nos últimos tempos, a luta não está, infelizmente, fora desse retrocesso. A gente tem falas, movimentos de tentativa de aumento de hospícios nesse país, como também a questão do uso de drogas. Há projetos de lei que hoje estão em andamento no Congresso, por exemplo, que estabelecem uma internação compulsória para usuários de drogas, o que é algo muito preocupante. Isso seria hoje a substituição ao manicômio, como se ele precisasse ainda existir não mais para os “loucos”, para os portadores de sofrimento, mas para os usuários de drogas lícitas e ilícitas.

E nesse momento em que tudo fica mais grave, de ideias retrógradas, de isolamento social, de prisão de apartamento, da vida social, é fundamental a gente ter em mente e defender os avanços de humanidade que as pessoas tiveram com a lei da reforma, com a luta antimanicomial.

Reconheço sim que faltam muitos serviços substitutivos. O RS é um estado problemático nisso, por exemplo. Mas já o estado de Minas Gerais não, é um dos lugares no país que mais tem esses serviços substitutivos, em que a pessoa pode passar o dia em atividades, em grupos operativos no seu atendimento, em oficinas, e volta para sua casa. E quando tem aguçado os seus sintomas pode sim passar a noite em determinado serviço com cuidados médicos, o que é muito diferente do que passar a vida inteira presa em um hospital psiquiátrico, em um manicômio judiciário.

BdFRS – Que ações foram feitas pelo Conselho na data e que aspectos seriam importantes falar quando se trata do tema da luta antimanicomial no país?

Ana Luiza – Festejamos a Luta Antimanicomial, uma data histórica para a psicologia. A psicologia tem uma participação efetiva na luta pelos fins dos manicômios, pela reforma psiquiatra, pela abertura de trabalhos substitutivos ao manicômio e à privação da liberdade. No específico desse ano, para ter a ideia do que seja para nós, pessoas ditas “normais”, que estamos vivendo um isolamento, lançamos uma campanha no sentido do que significaria para nós, pessoas ditas em liberdade, se o isolamento fosse algo para sempre.

Debate na Rede Soberania

Para aprofundar o debate da saúde mental, o Brasil de Fato RS e a Rede Soberania realizaram uma entrevista com Ana Luiza de Souza Castro na tarde desta quinta-feira (21). Assista o debate:

Fonte: Brasil de Fato RS

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