“Não faço música olhando para o meu umbigo”

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Fonte: O Sopapo

Foto: Foto: Dário Mello

Pedro Munhoz, a cada vez que desce do palco, sai com a sensação de missão cumprida e de que poderia morrer feliz. Sua vida e sua história na música marcam uma trajetória de militância no cenário artístico e social. Um tanto incompreendido no mundo fonográfico por apontar o dedo na ferida, denunciar a estupidez de um mundo absurdo, ter desapego de pudores e ser ousado em suas letras que retratam o amor e a luta dos oprimidos, Munhoz é um cantador inquieto. Na gama de diversas vertentes, a outra história de uma princesa chamada Pelotas, se encontra como um grito em sua canção: “Fui descobrir com o tempo que o me deixava inquieto, era que esta dita cultura pelotense era e é sob o ponto de vista de uma pseudo elite, falida diga-se de passagem, que ainda gostaria que Pelotas tivesse charqueadas e o negro na senzala”, declarou.  Ele se apresenta em Pelotas, nessa sexta (15).

De volta às raízes e à cidade natal onde tudo começou em sua trajetória pessoal, artística e social, o cantador Pedro Munhoz, poeta de versos que espelham e refletem as coisas do seu mundo, de alma visionária e inquieta, dos lances mais fecundos, de delatar delírios do torto submundo, o poeta de cantigas, que encontrou na música uma forma de se libertar, apresenta o seu  mais recente espetáculo “Guitarra Toda a Vida”, no dia 15 de agosto, na Bibliotheca Pública Pelotense.

Com produção cultural da Maria Bonita Comunicação, o espetáculo, sem fins lucrativos e com entrada gratuita, relembrará a vida do cancioneiro engajado com as lutas sociais, cantador dos trabalhadores  e apoiador dos movimentos sociais.

Pedro Munhoz foi entrevistado pela produção do espetáculo e do Sopapo e fala um pouco sobre suas inspirações, sua trajetória e sobre a apresentação da próxima sexta-feira.

O.S.: Se é possível responder isso, como começou tua trajetória na música?

Bem, primeiramente, obrigado pela oportunidade de comunicar-me com as pessoas, abrindo um espaço importante para o nosso pensamento.Minha vida musical começou, eu diria, desde sempre. Venho de uma família operária, minha mãe, costureira, meu pai, pedreiro, meu irmão reformava estofados, fazia colchão, empalhava cadeiras, pintava letreiros e eu o ajudava sempre que podia para ganhar uns trocados nas férias escolares. Mas o ambiente da estofaria era um mundo à parte, pois ali se falava de tudo: Política, Cultura, Arte, Carnaval, Poesia, Livros, etc. Meu irmão é uma grande referencia de Cultura e Arte na minha vida. Ele era Carnavalesco, fundou um bloco de carnaval ( o Bafo da Onça, cores: azul e amarelo, talvez por isso eu seja torcedor do Pelotas) que mais tarde virou escola de samba. Na minha casa construíamos os instrumentos, entre eles o sopapo., Hoje me admira ver gente por aí auto-proclamando o sopapo. Precisamos conhecer e entender melhor os ciclos da História. Ainda tem gente por aqui (em Barra do Ribeiro), que faz sopapo, negros, com quem muito aprendi. Estão aqui, no esquecimento.Ainda sobre minha formação, meu pai era político, de esquerda, vereador por muitos anos, foi perseguido na ditadura. Minha casa sempre esteve envolto ao ambiente não só da Cultura e das Artes, mas também da Política, dos livros, gerando sempre em tudo o questionamento das coisas, a provocação para pensar. Meu pai sabia fazer bem isto. Minha mãe por sua vez, sempre foi a grande maestra de tudo. De dentro de casa ela sempre teve o olhar clinico, apontando corretamente para as questões. Coisa que vez por outra  o meu pai não aceitava e não conseguia admitir que o olhar da minha mãe na maioria das vezes estava correto. Mas no final ele sempre  se dobrava à sua opinião.Dentro deste ambiente ainda durante algum tempo, até 1969 quando faleceu, teve o meu querido avô Zeca (pai de criação de minha mãe), que me ensinou a ler e escrever, antes de ir para a escola. Tenho saudades de meu avô.

O.S.: O engajamento social nasceu junto com a tua música? Como eles dialogam ao longo da tua trajetória?

Como te relatei anteriormente, o engajamento e a música nasceram juntos, quem sabe. Traduzir o mundo que eu vivia, em meio a ditadura, para aquele menino que sonhava ganhar a estrada e o mundo foi só uma questão de tempo… e de processo. Sempre procurei ser dialético, mesmo quando nada sabia de dialética que anos depois fui aprender nos livros. Mas sempre procurei entender o processo das coisas: O fazer e o refazer, a dualidade e a contradição, os processos de evolução, etc. Sou um auto-didata, estudei até o Ensino Médio (me formei em Magistério) e no mais, como diz o compositor Charly Garcia:”No existe una escuela que te enseñe a vivir.”

O.S.: Qual a diferença do Pedro de antigamente para agora?

Heráclito, filósofo grego, considerado o pai da dialética, nos diz que tudo muda, que não nos banhamos duas vezes no rio com a mesma água. Sou isto. Sou sempre um resumo de tudo que vejo, que sinto, uma síntese e ao mesmo tempo um porta-voz, não de mim, mas de tudo, de todos/as situações e pessoas que me cercam ou não. Estou sempre a serviço do Humano. Meu pensamento não é meu, pois não vivo sozinho no mundo. Meu pensamento sempre é a opinião de tudo isto e para isto leio muito, estudo, busco saber, questiono, embaso minhas convicções e opiniões e se preciso for, em nome da vida, estou sempre pronto a dar a minha vida pelo justo e pelo próximo.

 O.S.: Qual o conceito do mais recente Guitarra Toda a Vida?

Sou um trovador, voz e violão, um caminhante, ando só mas nunca ando sozinho. Este disco é uma homenagem ao violão (guitarra, em espanhol). É impossível desconsiderar nesta caminhada algo que sempre esteve comigo e faz parte de tudo isto, dos meus cantares e dizeres: O Violão. Por isso fiz uma canção que leva o nome do CD: Guitarra Toda A Vida. Também faço uma homenagem à Cultura Popular, à Sabedoria. Respeito a Sabedoria, pois ela sempre vem antes do Conhecimento. Para mim e me desculpe o pensamento douto, a Sabedoria é como a Poesia. A Poesia existe sem o poema, mas jamais poderá existir poema sem Poesia.Neste trabalho não deixei de trazer as questões sociais em algumas faixas, porém faço uma homenagem à Cora Coralina, Paulo Freire, aos mortos da Boate Kiss, questiono os monumentos frios e indiferentes que encontramos nas praças e passeios públicos, na canção Senhores de Bronze. Enfim, temas que abordam não somente questões sociais, mas que trazem o universo humano com suas inquietudes e algo que faz parte de todos/as nós: Tempo, Lugar e Espaço.

O.S.: Qual o disco mais marcante?

Aquele que eu ainda não gravei.

O.S.: Atualmente, quais são tuas parcerias musicais?

Costumo dizer que não tenho parceiros musicais, tenho amigos. Digo isto pelo fato que a maioria das minhas canções eu as componho melodia/letra. Mesmo assim, escrevo bastante e alguns escritos viram poemas, outros, canções e ainda outros eu acabo não musicando. Neste caso, eu vez por outra repasso para algum musico amigo, como foi o caso da letra Tivesse, musicada pelo compositor sergipano Giló Santana (Ver: https://www.youtube.com/watch?v=35u-dVAJpHM). Na minha trajetória musical tenho dois amigos mais efetivos no ato de compor vez por outra que são: Alvaro Barcellos e Martim Cesar. Dois grande letristas, amigos acima de tudo, pessoas conectadas em tudo aquilo que acredito.

O.S.: Qual a representação de Pelotas no teu trabalho?

Pelotas foi e é fundamental não só na minha vida musical como também na minha vida pessoal. Uma está interligada à outra. Em Pelotas pude conhecer muita gente boa, grandes artistas de vários segmentos, gente da música, aí nem se fala, tamanha qualidade que este lugar possui.E dentro desta convivência e relação com o lugar, começou a me chamar a atenção que Pelotas com uma dita tradição de Cultura, ao mesmo tempo me inquietava. Fui descobrir com o tempo que o me deixava inquieto, era que esta dita Cultura pelotense era e é sob o ponto de vista de uma pseudo elite, falida diga-se de passagem, que ainda gostaria que Pelotas tivesse charqueadas e o negro na senzala. Quando aprofundo isto, vendo que esta propalada Cultura é sob o olhar falido mas ainda vigente, compús a canção “A outra história da Princesa” (Ver: http://palcomp3.com/pedromunhozoficial/a-outra-historia-da-princesa/), falando de uma Pelotas negra, operária, com camelôs, gente pulsando nas ruas, com o seu Mercado Público em meio aos pregões e as bancas. Outro dia passei pelo Mercado Público de Pelotas e observei que ele foi “despublitizado”. Agora está cheio de lojinhas, tirando eu diria, o sentido real daquele espaço.  Alguns dirão, que eu não sou de Pelotas e que atualmente nem lá vivo. Eu digo que minha história e meu compromisso com o que penso também estão lá, permanecem lá.

O.S.: Como enxergas a arte/música sendo feita atualmente no Brasil?

Vivemos no Sistema Capitalista. A Cultura e a Arte estão nesta lógica. Tudo dividido por classes. A maioria das criações são produzidas para o sucesso, sempre sob o ponto de vista da Classe Média. A Industria Fonográfica é parte desta engrenagem. A arte no Brasil não cumpre nenhuma função, a não ser a do entretenimento. É assim que o Sistema age e é assim que ele quer. Excetúo nesta minha fala o RAP. Esta moçada tem compromisso e todo o meu respeito. Como disse o pesquisador José Ramos Tinhorão: “O RAP é o que temos de grata novidade.”Precisamos avançar mais e deixar de fazer musicas com pinta de Zona Sul do Rio,  com saudade de algo que nunca se viveu, ou ainda falando do frio e de uma estética que esquece que o frio por estas bandas está bem mais além do que olhar a rua no inverno, de dentro de casa, tomando mate em frente a lareira. Não me interessa aqueles que passam pelo frio e sim aqueles e aquelas que passam frio. Não faço musica olhando para o meu umbigo.

O.S.: O que dizes a respeito do atual momento politico no País?

Vivemos a contradição, porém não pode haver retrocesso. Voto na Dilma.

O.S.:  O que te inspira para a tua composição?

Tudo que é fruto primeiramente de uma profunda reflexão e que possa contribuir para o processo de discussão posterior.

O.S.: O periodo que estivestes em turnê com o Teatro Mágico rendeu o quê? Como foi esse momento na tua carreira?  

Foi muito bom. O reconhecimento sempre é bom. Nunca dei bola para o tal de sucesso. Aliás abomino.O Teatro Mágico me procurou em 2009, quando um de seus produtores, Everton Rodrigues, me ligou dizendo que o Fernando Anitelli (líder da banda), me tinha como uma de suas referencias musicais. Na época, agradeci e pensei que era só isto. Mas não, eles passaram a me convidar para participar dos seus shows. Não sou homem de show, sou um cantador de histórias, porém aceitei o desafio. Em 2011 eles gravaram Canção da Terra, no disco “Sociedade do Espetáculo” e em 2013 a Globo escolheu esta canção para colocar na trilha da novela Flor do Caribe, a partir da gravação do Teatro Mágico. Foi uma negociação longa, pois havia vários pontos a serem discutidos e analisados. No final, assinamos um contrato que é considerado o primeiro contrato de Mídia Livre do Brasil. Nele a Som Livre administra a obra de forma compartida com o autor e interpretes, sendo que qualquer pessoa pode fazer livremente o uso da mesma, desde que não seja comercialmente. Em síntese, foi uma grande experiência e a construção de uma grande amizade, carinho e gratidão pelos meninos e meninas da Troupe Teatro Mágico. Estamos sempre que possível em contato. O Fernando é um grande compositor, além de uma grande figura humana. Como de resto toda a troupe.

O.S.: O que andas fazendo atualmente? Como está o teu caminhar na música?

Sou um caminhante, vivo percorrendo o Brasil com o meu violão, minhas idéias e canções. Canto desde o teatro na grande capital, até o pequeno salão na mais distante pequena cidade deste Brasil adentro. Não sou um artista, sou um operário da arte. Não sou alternativo, sou independente. Ser alternativo é ser uma outra opção correndo o risco de deixar de ser. Ser independente é ser livre para optar e ser.

O.S.: O que o público vai encontrar no dia 15 de agosto, na Biblioteca? 

O público de Pelotas vai encontrar um Pedro Munhoz amadurecido, cabelos (os que sobraram) brancos que trazem a leveza do tempo, que segue acreditando no Humano, que faz da palavra ferramenta de luta, que deseja com palavras um mundo melhor, que ainda acredita no abraço, que oferece rosas, que leva muito a sério quando fala de amor, que poetiza, que sonha e ao mesmo tempo vive com os pés fincados no chão. Que acredita nos frutos que a terra  dá e que sempre aposta no milagre do simples. Este sou eu, empunhando um violão,  que a cada apresentação que faço, desço sempre do palco com a sensação da missão cumprida e que poderia morrer feliz naquele dia.

Serviço:

Show Pedro Munhoz – Espetáculo Guitarra Toda a Vida-  15 de agosto, sexta – Bibliotheca Pública, às 20h30- Entrada Franca

Apoio: Teia Ecológica, MST, CEEP, ADUFPel, Sindicato dos Metalúrgicos de Pelotas, Velhinho, Soares, Signorini & Moreira Advogados Associados, Isquierdo e Costa Advogados e Reginaldo Bacci Advogados Associados.

Munhoz

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