40 anos depois, assistimos à saudação coletiva da violência, diz uruguaia sequestrada no RS durante ditadura

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“Os comunistas de hoje são os indígenas, os que lutam pelo meio ambiente, os sem terra, os sem teto”, disse Lilian | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Débora Fogliatto

Em 12 de novembro de 1978, 40 anos atrás, o casal uruguaio Universindo Díaz e Lilian Celiberti, juntamente com seus filhos Camilo e Francesca, foram sequestrados de forma clandestina por militares de seu país de origem na casa onde viviam, em Porto Alegre. Após receber uma ligação na sede da redação local da revista Veja, o jornalista Luiz Cláudio Cunha foi até a residência deles, onde flagrou o sequestro e denunciou a colaboração entre as ditaduras dos países sul-americanos no contexto da Operação Condor.

Neste 12 de novembro de 2018, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha trouxeram a Porto Alegre Lilian, agora com 68 anos, e seus filhos em um evento lembrando os 40 anos do ocorrido. Universindo faleceu em 2012. No Memorial do Rio Grande do Sul, além do painel, também acontece uma exposição que conta a história com documentos da época. A palestra contou ainda com a presença de Luiz Cláudio Cunha e da historiadora Ananda Fernandes, responsável pela exposição.

Em suas falas, os três traçaram paralelos entre o contexto da ditadura e a política brasileira atual. “É nosso dever sempre lembrarmos desse período, e agora é um momento mais propício ainda para que a gente lembre o que foram as ditaduras”, disse Ananda, destacando que há pessoas que defendem a volta de uma ditadura no país e mencionando a importância do papel da imprensa na época. “Foi graças à denúncia da imprensa que essa operação, que previa o desaparecimento deles quatro, acabou fracassando. E foi possível estabelecer laços de solidariedade e resistência a partir da atuação da imprensa também”, destacou.

Na época do sequestro, Lilian e o companheiro eram militantes do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP) e haviam se mudado para o sul do Brasil após passar um período de exílio na Itália, com a ideia de continuar o trabalho a partir daqui. O fato de serem taxados como comunistas foi o suficiente para serem sequestrados e presos. “Uma vez mais na história todos esses títulos caem sobre as vítimas, sempre há uma criminalização para nos colocarem no lugar de criminoso, essa construção para justificar os abusos de poder”, diz a ativista.

Para ela, a situação é muito significativa nos dias atuais, pois essa prática de criminalização permanece a mesma. “Os comunistas de hoje são os indígenas, os que lutam pelo meio ambiente, os sem terra, os sem teto, os desgraçados desse mundo que se organizam para ter dignidade como pessoas. Há 40 anos, o DOPS se comprometeu e atuou junto com militares brasileiros e uruguaios para nos sequestrar, nos mandar para o Uruguai, nos entregar para a ditadura. Isso só se justifica porque nos pintaram como dois guerrilheiros perigosos e armados e não um casal vivendo com seus dois filhos em casa”, analisa.

 

Fonte: Sul 21

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